As eleições de 2026 produziram um curioso paradoxo institucional nos EUA e no Brasil: tanto Trump quanto Lula terão de governar sem maioria de seu partido nas duas casas legislativas. Mas as consequências dessa divisão de poder tendem a ser bastante diferentes.

Em Divided We Govern , David Mayhew desafia a ideia de que governos divididos necessariamente produzem paralisia decisória. Ao analisar a produção legislativa americana entre 1946 e 1990, Mayhew concluiu que a quantidade de leis relevantes aprovadas não varia sistematicamente entre governos unificados e divididos. A política continua funcionando, embora sob outras condições.

David Epstein e Sharyin O’Halloran em Delegating Powers qualificaram esse argumento: sob governos divididos, o Congresso tende a delegar menos poderes ao Executivo e a impor mais restrições e mecanismos de fiscalização. A questão, portanto, não é apenas quanto se legisla, mas também como e com que margem de autonomia o Executivo consegue governar.

É nesse ponto que Brasil e EUA se distanciam. Trump enfrentará uma oposição democrata majoritária na House of Representatives e no Senado. O sistema eleitoral majoritário e bipartidário oferece poucos incentivos para que a oposição compartilhe os custos e, sobretudo, os créditos da agenda presidencial. Cooperar pode significar ajudar Trump a governar e, paradoxalmente, fortalecer eleitoralmente o adversário. A tendência é de um Executivo politicamente isolado, submetido a maior resistência e fiscalização legislativa.

No Brasil, o cenário é outro. Embora a federação PT-PCdoB-PV tenha apenas 88 deputados e nove senadores, e o PL seja a maior bancada individual, com 121 deputados e 29 senadores, o multipartidarismo abre espaço para a construção de uma coalizão governista majoritária. Diferentemente dos EUA, o governo não precisa conquistar a oposição como bloco: pode negociar apoio com diferentes partidos, isolando o principal adversário. Assim, enquanto Trump tende ao isolamento, no Brasil quem poderá ficar isolado será o PL.

Isso não significa que Lula terá vida fácil. A experiência petista foi marcada por coalizões excessivamente amplas, heterogêneas, desproporcionais em relação à força dos partidos e distantes da mediana ideológica do Congresso. Montar uma maioria é uma possibilidade institucional; transformá-la em uma coalizão funcional e sustentável é outro desafio.

Afinal, as condições objetivas para governar com maioria estarão mais favoráveis a Lula do que a Trump. Resta saber se, em seu quarto mandato, o presidente brasileiro terá aprendido a fazer escolhas melhores na construção e na gestão de sua coalizão.