O fim da produção de aço da Gerdau em Divinópolis , no Centro-Oeste de Minas Gerais, foi motivado, segundo a empresa, pela perda de competitividade da operação. Entre os fatores apontados estão o alto custo do minério de ferro e as condições do mercado internacional. Mas o que está por trás desse cenário econômico?
Wagner Almeida, especialista em finanças e professor universitário, explica que o caso da fábrica pode ser entendido a partir de uma conta matemática. A unidade transforma minério de ferro em ferro-gusa e, posteriormente, em aço. Nesse processo, o custo da matéria-prima representa apenas uma parte das despesas, que também incluem transporte, energia, mão de obra e outros insumos.
Quando o custo para produzir aumenta e há pressão sobre os preços de venda, a operação perde competitividade.
“ A empresa precisa conseguir produzir o aço, que é o negócio principal dela, a um custo que permita vender esse aço e competir no mercado. Quando a Gerdau fala em falta de fornecimento de minério de ferro a custos competitivos, isso significa que não há fornecimento em condições de preço que tornem essa produção vantajosa para a unidade”, explica.
Importações
As importações também contribuem para aumentar essa pressão , segundo o especialista. Quando o aço produzido em outros países chega ao Brasil por preços mais baixos, as siderúrgicas nacionais enfrentam mais dificuldades para comercializar os próprios produtos.
“Por isso existem tarifas e cotas de importação sobre alguns tipos de aço. Essa é uma forma de proteger a produção nacional”, afirma Wagner Almeida.
No entanto, essas medidas não abrangem todos os produtos. Parte da concorrência também ocorre de forma indireta, com a entrada no Brasil de máquinas e outros bens industrializados que já utilizam aço produzido no exterior.
Perdas no mercado externo e interno
Em entrevista à TV Integração, Pedro Fernandes, economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), avalia que o Brasil enfrenta uma crise de competitividade no setor siderúrgico . Segundo ele, a indústria nacional perde espaço tanto no mercado externo, em razão das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos, quanto no mercado interno, com o aumento da entrada de produtos chineses a preços mais baixos.
“A siderurgia brasileira, notadamente a capacidade instalada em Minas Gerais, foi tributada severamente no conflito comercial com os EUA. A nossa indústria perdeu mercado na exportação para o mercado americano. Por outro lado, está tendo um aumento doméstico de produtos chineses, que são produzidos a preços artificiais. A indústria mineira não tem como competir neste sentido. Perdemos mercado externo por tributação e mercado interno por produtos chineses”, afirma.
O economista destaca ainda que o encerramento das atividades de uma indústria siderúrgica provoca efeitos que vão além dos empregos diretamente ligados à empresa. A redução da atividade econômica também pode comprometer a arrecadação dos municípios e, consequentemente, a capacidade de investimento em serviços públicos.
“A indústria siderúrgica é uma atividade econômica de alto valor adicionado e contribui com a capacidade arrecadatória dos municípios onde está instalada e também do estado. Quando uma indústria fecha ou diminui substancialmente sua produção, a receita pública dos municípios é afetada, o que diminui a capacidade desses municípios de oferecer bens e serviços públicos para a população”, explica.
Empresa cita custos e concorrência internacional
No posicionamento enviado à imprensa nesta terça-feira (3), a Gerdau atribuiu o fim da produção à perda de competitividade da operação, principalmente pela dificuldade de acesso ao minério de ferro a preços competitivos, pelo avanço das importações de aço no mercado brasileiro e pelas condições desfavoráveis do mercado internacional, especialmente para as exportações.
O minério de ferro é utilizada na fabricação do aço e, segundo a empresa, a falta de condições favoráveis de fornecimento tem pressionado os custos da operação.
A companhia também destacou a importância histórica das vendas ao exterior para o desempenho da unidade de Divinópolis. No entanto, o cenário internacional desfavorável tem dificultado a competitividade das exportações.
A decisão faz parte de uma estratégia de reorganização das atividades da Gerdau no Brasil. A empresa afirma que pretende concentrar a produção em unidades consideradas mais competitivas e eficientes, com maior nível tecnológico, para garantir a sustentabilidade dos negócios no longo prazo.
Impactos na economia de Divinópolis
De acordo com a Prefeitura de Divinópolis, a unidade da Gerdau pode representar até cerca de 15% do repasse de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) ao município.
O encerramento da produção também tem impacto sobre o mercado de trabalho e a cadeia produtiva local. Segundo a administração municipal, cerca de mil trabalhadores e 2 mil empresas da cidade são afetados pela decisão .
Em nota, a FIEMG destacou que a trajetória da Gerdau se confunde com a história do desenvolvimento industrial de Divinópolis. A entidade classificou o fechamento como uma perda significativa para a economia local e para centenas de trabalhadores e familiares.
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