Sete brasileiros foram eleitos deputados estaduais nos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato, as midterms, realizadas nesta semana. Todos são filiados ao Partido Democrata, e três deles nasceram em Minas Gerais. Entre os mineiros estão Rita Mendes, natural de Conselheiro Pena, Priscila Sousa, de Ipatinga; e Farley Santos, de Sobrália, municípios localizados na região Leste do estado, próximos a Governador Valadares.
Dos eleitos, quatro representarão o estado de Massachusetts, incluindo Rita e Priscila. Farley Santos foi eleito por Connecticut. Os demais brasileiros eleitos são naturais do Rio de Janeiro, Pernambuco e Mato Grosso.
Em entrevista à Itatiaia , as duas mineiras falaram sobre suas trajetórias nos Estados Unidos, os desafios enfrentados pela população imigrante e o cenário político e econômico norte-americano. Ambas chegaram ao país ainda crianças, acompanhadas pelas famílias, em busca de melhores condições de vida.
Natural de Conselheiro Pena, Rita Mendes tem 42 anos e chegou aos Estados Unidos em 1996, aos 12 anos, com a mãe e dois irmãos. A família, de origem humilde, deixou o Brasil em busca de novas oportunidades. Ela obteve a cidadania americana próximo dos 30 anos, formou-se em Direito e abriu um escritório de advocacia especializado em imigração.
Atualmente, Rita mora em Brockton, cidade próxima a Boston, e já exerceu dois mandatos como vereadora. Agora, segue para seu terceiro mandato como deputada estadual em Massachusetts.
Ao avaliar o cenário norte-americano, a parlamentar aponta o aumento do custo de vida como um dos principais fatores de insatisfação da população. Segundo ela, mesmo pessoas que trabalham em período integral e recebem salário mínimo encontram dificuldades para arcar com despesas básicas.
"Está muito caro. Se você trabalha em tempo integral e recebe o salário mínimo, não consegue pagar uma moradia, alimentação. O custo de vida, a gasolina, está tudo muito caro", afirma.
Para Rita, a insatisfação econômica, somada à política migratória do governo do presidente Donald Trump, contribuiu para o resultado favorável aos democratas nas eleições. Ela avalia que parte dos eleitores não concorda com a perseguição a imigrantes e suas famílias.
"Acho que foi essa junção que deu essa vitória tão grande para o Partido Democrata aqui nos Estados Unidos", considera.
Defesa dos direitos dos imigrantes
Outra mineira reeleita em Massachusetts é Priscila Sousa, de 38 anos. Natural de Ipatinga, ela chegou aos Estados Unidos em 1995, aos sete anos, também acompanhada pela família, que buscava melhores condições de vida. A parlamentar conseguiu a cidadania americana aos 16 anos e tem formação em Ciência Política.
Priscila mora em Framingham, cidade que concentra uma das maiores comunidades brasileiras dos Estados Unidos, com aproximadamente 20 mil brasileiros. Eleita pela terceira vez para a Assembleia Legislativa estadual, ela afirma que a defesa dos direitos dos imigrantes não representa um posicionamento contrário às leis norte-americanas, mas uma cobrança para que a Constituição seja respeitada.
Ao comentar a política migratória adotada durante o governo Trump, a deputada critica o que considera excessos na interpretação e na aplicação das leis de imigração. Segundo ela, as medidas têm provocado consequências que ultrapassam a própria comunidade imigrante e atingem também a segurança pública.
"Quando eu virei deputada, o compromisso que fiz foi de defender a Constituição americana. Nós não estamos concordando com a interpretação de algumas leis que são excessos, vão além dos poderes que são dados pela Constituição", explica.
Na avaliação da parlamentar, o medo de possíveis consequências relacionadas à situação migratória tem afastado imigrantes da colaboração com as autoridades policiais. Como exemplo, ela cita situações em que testemunhas de crimes e vítimas de violência doméstica deixam de procurar a polícia por receio de serem identificadas e sofrerem consequências migratórias.
"Agora os imigrantes estão com medo de cooperar com a polícia. Então, quando tem alguma testemunha de um crime ou uma vítima de violência doméstica, eles não vão. Como é que a causa da segurança pública avança numa situação dessa?", questiona.
Priscila também contesta a ideia de que imigrantes em situação irregular permanecem nessa condição por falta de interesse em regularizar sua documentação. Ela relata que sua própria família viveu nove anos e meio sem documentação, período em que buscou alternativas legais para obter a regularização, inclusive com a contratação de advogados.
A deputada ainda chama atenção para a contribuição econômica dessa população. De acordo com ela, mesmo sem acesso a determinados programas sociais, imigrantes indocumentados pagam impostos e ajudam a sustentar o sistema norte-americano.
"Eles pagam para um sistema, e o sistema é sustentado pela comunidade. Então, lutar pelo direito dos imigrantes é uma questão de proteger a nossa segurança pública, é uma questão de proteger a nossa economia", defende.
Ver esse post no Instagram
Com a eleição de sete brasileiros para cargos legislativos estaduais, a presença de representantes com trajetórias migratórias na política norte-americana ganha destaque. Para as duas mineiras, a atuação parlamentar passa também pela defesa de uma comunidade que enfrenta dificuldades econômicas, insegurança e desafios relacionados à regularização migratória.

