A Santa Casa de Misericórdia de Araxá enfrenta uma das situações financeiras mais delicadas de sua história recente. A instituição está próxima de um colapso financeiro, segundo avaliação da advogada Natália Ávila, que concedeu entrevista à Rádio Imbiara nesta quinta-feira (5). A crise, que se arrasta há anos e se agravou nos últimos meses, comprometeu a capacidade do hospital de manter o atendimento, devido à falta de recursos para a compra de medicamentos, materiais e insumos.

Na quarta-feira (4), a Santa Casa comunicou a suspensão temporária da entrada de novos pacientes, justificando a medida pela necessidade de preservar os recursos disponíveis para garantir a assistência às pessoas que já estavam internadas. Segundo Natália, naquele momento, o estoque de medicamentos e materiais era suficiente apenas para manter os atendimentos em andamento.

A advogada explicou que a decisão foi tomada pelo conselho deliberativo em conjunto com as diretorias técnica e assistencial. A medida provocou preocupação sobre a continuidade dos serviços hospitalares, especialmente porque a Santa Casa é uma das principais referências para os atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no município.

Prefeitura repassa R$ 1,093 milhão e hospital retoma novos atendimentos

Durante a entrevista, Natália informou que a instituição recebeu da Prefeitura de Araxá um repasse de aproximadamente R$ 1,093 milhão. De acordo com ela, o recurso permite a aquisição de medicamentos, materiais e insumos para garantir o funcionamento do hospital por aproximadamente uma semana.

Após o comunicado de suspensão dos atendimentos, a Santa Casa recebeu, na tarde desta quinta-feira (5), uma notificação urgente da Secretaria Municipal de Saúde solicitando a retomada da entrada de novos pacientes.

A advogada confirmou que a instituição respondeu à notificação e informou que retomaria os atendimentos. No entanto, ressaltou que a disponibilidade de materiais e medicamentos está limitada a aproximadamente sete dias.

Outro problema apontado por Natália é a falta de escala médica para o setor de clínica médica na próxima semana. A situação foi formalmente comunicada à Secretaria Municipal de Saúde.

"É extremamente crítica. Nós estamos próximos a um colapso, infelizmente. É a situação que estamos vivendo", afirmou.

Repasse não é suficiente para pagar metade da folha salarial

Além da dificuldade para manter o abastecimento hospitalar, a Santa Casa enfrenta problemas para cumprir os compromissos financeiros, incluindo o pagamento dos funcionários.

Segundo Natália, embora o repasse municipal permita a compra de materiais e medicamentos, o valor recebido não é suficiente para quitar nem metade da folha de pagamento.

A instituição pretende realizar um pagamento proporcional a todos os funcionários, com o objetivo de distribuir os recursos disponíveis entre os trabalhadores. A advogada, entretanto, ressaltou que ainda será necessário buscar recursos para completar os salários.

A advogada da Santa Casa de Misericórdia de Araxá, Natália Ávila, falou à Rádio Imbiara sobre a grave crise financeira enfrentada pela instituição. Foto: Caio César

Déficit mensal chega a aproximadamente R$ 700 mil

Outro dado apresentado na entrevista diz respeito ao desequilíbrio financeiro da instituição. Conforme estudo realizado pela Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais (Federassantas), o déficit mensal da Santa Casa é de aproximadamente R$ 700 mil.

Natália explicou que, durante as negociações com a Prefeitura de Araxá, foi informado que o município teria condições de complementar aproximadamente R$ 300 mil mensais. Dessa forma, permaneceria uma diferença de cerca de R$ 400 mil para equilibrar as contas do hospital.

A advogada esclareceu que o problema não se limita a dívidas acumuladas, mas envolve uma diferença contínua entre receitas e despesas.

Segundo ela, a tabela de remuneração do SUS está desatualizada e, apesar de o município realizar um complemento de 51% sobre os valores, a receita ainda não é suficiente para cobrir os custos da instituição.

Diante desse cenário, a Santa Casa iniciou um estudo interno para revisar despesas, reduzir custos operacionais, avaliar contratos e analisar a folha salarial.

Natália destacou que a instituição precisa encontrar uma maneira de equilibrar as contas para evitar o comprometimento de seu patrimônio e garantir a continuidade dos serviços.

Antigo gestor foi destituído após decisão da Assembleia

A situação financeira também esteve entre os motivos que levaram à saída do antigo gestor da Santa Casa.

De acordo com Natália, o conselho deliberativo já demonstrava insatisfação com a condução administrativa, principalmente pela demora na apresentação de resultados e pelo aumento das dívidas ao longo do último ano.

A advogada afirmou que a quantidade de processos judiciais envolvendo a instituição praticamente triplicou, com ações relacionadas a débitos trabalhistas, fornecedores e prestadores de serviços.

Outro ponto mencionado foi a ausência frequente do antigo gestor na instituição, situação considerada preocupante diante das demandas administrativas e assistenciais do complexo hospitalar, especialmente após a unificação com a Casa do Caminho.

Natália explicou que a destituição foi encaminhada pelo conselho deliberativo à Assembleia Geral de Associados, órgão responsável legalmente pela decisão. A assembleia votou pela saída do antigo dirigente.

Conselho procura novo gestor para a instituição

Com a saída do antigo responsável pela gestão, o conselho deliberativo passou a acompanhar mais de perto a administração da Santa Casa.

Segundo Natália, há aproximadamente 45 dias os integrantes do conselho vêm realizando reuniões e acompanhando praticamente todos os dias as atividades da instituição, em conjunto com as diretorias técnica e assistencial.

A Santa Casa também está em negociação com uma pessoa para assumir a gestão. Entretanto, até o momento da entrevista, não havia uma definição oficial. O possível novo gestor estaria analisando os dados financeiros e conhecendo a situação administrativa do hospital antes de aceitar o convite.

Possíveis irregularidades serão investigadas pela Polícia Civil

Durante a entrevista, Natália também confirmou que a instituição identificou possíveis irregularidades em prestações de contas de convênios firmados com a Prefeitura de Araxá.

Segundo a advogada, foram encontrados documentos e indícios de possíveis fraudes, que foram encaminhados aos órgãos competentes para apuração.

Ela ressaltou a importância da investigação da Polícia Civil para esclarecer os fatos e verificar se houve irregularidades administrativas ou eventual má gestão dos recursos.

A advogada evitou antecipar conclusões sobre o caso e afirmou que a Santa Casa deverá se manifestar de maneira mais aprofundada após a conclusão do inquérito policial.

Município, Estado e União são responsáveis pelo financiamento da saúde

Ao falar sobre a preocupação com a continuidade dos atendimentos, Natália destacou que a Santa Casa desempenha um papel fundamental para a assistência hospitalar em Araxá, especialmente para os pacientes que dependem do SUS.

Ela relatou a preocupação com a possibilidade de pacientes não conseguirem atendimento diante da situação enfrentada pelo hospital, considerando também a demanda já existente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

A advogada lembrou que o financiamento da saúde é uma responsabilidade compartilhada entre União, Estado e Município e informou que os três entes foram envolvidos nas tratativas sobre a situação financeira da instituição.

A Prefeitura de Araxá, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, está em diálogo com a Santa Casa para buscar alternativas que garantam a continuidade dos serviços.

Apesar da retomada dos novos atendimentos após a notificação municipal, a instituição alerta que o cenário permanece delicado, com estoque de insumos previsto para apenas uma semana e dificuldades para manter os compromissos financeiros.