Como a derrota nas urnas afeta Trump, o Brasil e o resto do mundo? Entenda

Novo cenário traz incertezas para Washington; olhar dos democratas estará dentro de casa, mas relações exteriores devem continuar nas mãos do líder republicano. Crédito: Estadão

Donald Trump sofreu uma derrota tão clara nas eleições de meio de mandato que não teve qualquer espaço para contestar o resultado. A notícia chegou nove dias depois de Lula (PT) se reeleger contra Flávio Bolsonaro (PL) com uma margem maior do que a de quatro anos atrás. Nos dois casos, a direita perdeu em disputas marcadas por forte rejeição e por uma mobilização alta, não captada plenamente pelas pesquisas.

Nos Estados Unidos, a rejeição crescente a Trump expõe um populismo sem povo. A política anti-imigração agressiva custou caro entre os latinos, grupo em que ele mais tinha avançado em 2024 e que se deslocou cerca de 30 pontos em direção aos democratas. Os jovens também voltaram aos democratas. Isso pesou em Estados como o Texas, que não elegia um democrata para o Senado desde 1988: James Talarico venceu por 12 pontos, e o partido ainda levou o governo estadual. A guerra no Irã, iniciada em fevereiro, elevou o preço dos combustíveis e corroeu o apoio ao presidente, inclusive entre republicanos.

Agora, Trump chega aos dois últimos anos de mandato com poder bem mais limitado. Os democratas não tiram dele a influência sobre a política externa e comercial. Mas Trump vai passar mais tempo sob investigações no Congresso e ver aliados se afastarem de olho em 2028. Para entender o futuro da política americana, hoje importa mais olhar para os democratas e para os republicanos que querem disputar a sucessão do que para o presidente.

No Brasil, a sensação de rejeição, estagnação e dificuldade econômica foi um grande obstáculo para Lula. Mas um dos motivos mais importantes para a vitória é que o adversário também tinha rejeição muito alta. Flávio era a reencarnação do governo de Jair Bolsonaro , que tinha desagradado parte do próprio eleitorado em um passado muito recente. Em outras eleições na América Latina, como no Chile e na Bolívia, a direita apresentou nomes sem passagem por governos anteriores. No Brasil, a eleição provou o erro estratégico da direita ao se manter colada em Bolsonaro nos últimos 4 anos.

Isto posto, não foi tudo rejeição. Nos dois países, projetos mais progressistas encontraram novas identidades e capacidade de mobilização. Entre os democratas, há uma troca de geração, com uma safra de millennials, nativos das redes, como Talarico e Jon Ossoff. As vitórias num território amplo devolvem aos democratas diversidade geográfica e até ideológica, e aumentam a chance de escolherem para 2028 um candidato competitivo em todos os grupos, mais ligado ao custo de vida do que à guerra cultural.

No Brasil, a reta final também foi turbinada pela mobilização de eleitores de esquerda, de jovens e de grupos pró-governo, em defesa do legado de Lula e do fim da escala 6x1, aprovado pelo Senado no meio do segundo turno. Lula venceu não apenas no Nordeste, mas em grandes cidades do Sul e Sudeste como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. A rejeição a Bolsonaro foi uma semente importante, mas não explica sozinha a virada, muito menos a margem superior à de 2022.

Para a direita brasileira, a eleição reforça a necessidade de renovação, com novos quadros capazes de se afastar do bolsonarismo ou, pelo menos, de não parecer uma nova versão do governo Bolsonaro. Na esquerda, o PT e seus aliados viram surgir novas lideranças, que agora têm quatro anos para se posicionar na sucessão de Lula. Mas a política institucional será diferente dos Estados Unidos. Ao contrário dos democratas, Lula não controla o Congresso: o PL subiu de 97 para 121 deputados, e o Senado eleito será mais hostil ao governo a partir de 2027. Já há sinais de aproximação maior com o Centrão, e Lula precisará agir em temas sensíveis para além da economia, como segurança pública e a crise do Judiciário, para criar mais anticorpos contra a insatisfação crônica do eleitorado.