“Penso que o debate de hoje seria mais decisivo se não tivéssemos um cenário tão petrificado”
Carlos Andreazza fala sobre o debate presidencial de hoje, os cenários e expectativas de como será o encontro entre Lula e Flávio Bolsonaro. Crédito: TV Estadão
A campanha chega à véspera da eleição sob emoções, ímpetos seletivos mesmo, que dificultam a crítica racional dura sobre a forma com que a Justiça incorporou xandonicamente a censura prévia como recurso em defesa de direitos políticos. Derrubam-se contas, canais – meios de comunicação – como maneira democrática de proteger o eleitor, esse parvo, contra a desinformação.
O cronista informa que a guerra dos sigilos afasta o eleitor, esse sábio, das urnas. Guerra de petições-lacrações, aquela do “eu abro meus dados desde que ele abra os dele”, guerra de condicionais em que se concorre, numa corrida entre rejeitados, pelo posto de quem seria o menos desonesto. A rinha entre rejeitados produz rejeição ao voto.
A campanha chega à véspera da eleição sob emoções, paixões partidárias mesmo, que dificultam a distinção entre mundo real e espuma. Não que a espuma seja desprovida de valor estratégico: confunde, instiga insegurança, empurra à defensiva – pode induzir a erro. Jogo jogado: aquele em que a onda nas redes – a mobilização, também nas ruas, de convertidos – apontaria para uma virada irresistível. Esse é o texto influente do momento. O de que, cabeça a cabeça, com Lula atropelando na reta final, a virada virá.
Peleja eleitoral também é forja de desejos; também contempla a distribuição de estímulos artificiais para a geração de esperanças. Uma delas: a de que disputa em que um não reconhece no outro adversário legítimo possa produzir debate-diálogo propositivo – para o quê, ademais, seria necessário haver propostas.
Este é o texto influente do momento, carregador de fé, contratador daquela condição urgente em que cada ato consistirá num “tudo ou nada”, o derradeiro debate televisivo se tornando decisivo: o de que a blitz lulojanonista – a forma como seu volume se espalha e impõe – significaria conquista de voto e arrancada até a vitória. Não é impossível. Jogo jogado – e aberto, afinal. Jogo jogado, aberto – e com parca margem para transformações capazes de mudar um mapa empedrado. A cena é de estabilidade.
A virada depende de combinação de ocorrências excepcionais. O presidente não precisaria somente baixar a abstenção em quantidade sem precedentes. Teria de reconquistar, do primeiro para o segundo turno, aquele eleitor – que fora seu em 2022, o que acreditava na frente ampla – que, no curso de quatro anos, migrou para Bolsonaro e demais candidatos (mais ou menos) à direita. São volatilidades diferentes: a do volúvel, digamos, estrutural, cuja transição ocorreu ao longo de um governo inteiro; e a que ocorreria no intervalo de três semanas.
O eleitor tem rejeitado, a rigor, a reeleição, a incumbência. E Lula precisaria baixar a abstenção botando milhão a mais nas urnas, captar preferencialmente – e fazendo vantagem – os votos de Augusto Cury , Renan Santos e Ronaldo Caiado , e tirar votos, a valer, do adversário. Não é impossível.

