Candidatos se enfrentam no 2º turno da eleição presidencial de 2026; ambos apresentam propostas convergentes em saúde e educação, mas divergem sobre a condução da economia
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Os planos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência no 2º turno das eleições de 2026 , apresentam propostas semelhantes em áreas como saúde e educação, mas divergem sobre a condução da economia, o equilíbrio das contas públicas, as relações de trabalho, a segurança e o papel do Estado. Os documentos reúnem as medidas que cada um pretende implementar em um eventual mandato de 2027 a 2030.
Lula apresentou seu programa ao Tribunal Superior Eleitoral em 7 de agosto. Flávio divulgou o documento 6 dias depois, em 13 de agosto. Leia a íntegra do plano de governo de Lula (PDF – 3,1 MB) e a íntegra do plano de governo de Flávio (PDF – 19 MB) .
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ECONOMIA E CONTAS PÚBLICAS
Lula defende manter o arcabouço fiscal, ampliar investimentos públicos e combinar o crescimento econômico ao controle das despesas e ao aumento da arrecadação. O programa também propõe melhorar a eficiência do gasto e preservar políticas sociais. Na área tributária, o presidente propõe cobrar mais dos contribuintes de maior renda e revisar benefícios fiscais considerados ineficientes, sob o argumento de promover justiça tributária. O plano também aborda a isenção do Imposto de Renda e a taxação dos mais ricos .
Flávio propõe estabelecer uma nova regra fiscal, produzir superavits primários e estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB (Produto Interno Bruto) antes de reduzi-la. O senador também pretende cortar gastos, extinguir ao menos 10 ministérios, reduzir cargos comissionados, combater benefícios adicionais pagos a servidores e dar continuidade à reforma administrativa. Outra medida é retomar o Programa Nacional de Desestatização.
Os programas divergem também sobre os impostos. Lula pretende ampliar a arrecadação, enquanto Flávio defende reduzir a carga tributária, revisar pontos da reforma tributária sobre o consumo , diminuir o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) e desonerar investimentos e exportações. O plano do senador também propõe reduzir tributos sobre energia e combustíveis.
Economistas ouvidos pelo Poder360 avaliam que os 2 programas deixam lacunas sobre o ajuste das contas públicas. O documento de Lula não detalha como as medidas seriam suficientes para conter a trajetória da dívida. No caso de Flávio, o plano não estima quanto os cortes de despesas economizariam nem apresenta projeções para a dívida e as metas fiscais. A dívida bruta do governo é acompanhada pelo Banco Central .
Para o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos , Bruno Perri, o arcabouço fiscal é insuficiente e não propõe consequências efetivas quando suas regras são descumpridas. Já o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman classificou a proposta de Lula como um “Orçamento frouxo” , por considerar que há pouca ênfase no controle das despesas.
Sobre Flávio, Perri aponta que privatizações geram receitas não recorrentes e que faltam detalhes sobre o alcance dos cortes. Schwartsman afirma que um ajuste duradouro exigiria enfrentar despesas obrigatórias. Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio da AW Capital, avalia que uma nova regra fiscal poderia contribuir para o ajuste, desde que o candidato esclareça como pretende executá-la.
TRABALHO E ENDIVIDAMENTO
Na área trabalhista, Lula defendeu e aprovou o fim da escala 6 X 1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial.
Flávio Bolsonaro , que inicialmente criticou a medida e defendia a negociação de jornadas entre empresas e trabalhadores, votou a favor da mudança. O senador afirmou que mudou de posição depois de ouvir trabalhadores durante a campanha e disse que não pretende reverter o fim da escala caso seja eleito.
Flávio, porém, continua defendendo maior flexibilidade nas contratações, com possibilidade de negociar a jornada e a remuneração conforme as horas trabalhadas .
Flávio também propõe comprar dívidas bancárias e congelar os débitos por 6 meses para pessoas físicas e 12 meses para empresas. O senador apresentou a medida durante o debate presidencial da Band , em 18 de outubro.
“Vou comprar as dívidas bancárias e congelar os débitos por 6 meses pra pessoa física e 12 meses pra pessoas jurídicas” , declarou.
SAÚDE E EDUCAÇÃO
Os 2 candidatos propõem reduzir as filas do SUS (Sistema Único de Saúde). Lula pretende ampliar a atenção básica e especializada e fortalecer iniciativas como o Agora Tem Especialistas. Flávio aposta na digitalização dos serviços, com prontuário eletrônico único, agendamento por inteligência artificial e telessaúde, além do aproveitamento de horários ociosos da rede privada.
Na educação, Lula defende expandir o ensino integral, os institutos federais e o Pé-de-Meia. Flávio também propõe ampliar o ensino integral, mas dá ênfase à alfabetização pelo método fônico, à expansão das escolas cívico-militares e ao ensino técnico.
O programa de Lula propõe ampliar investimentos públicos e fortalecer a atuação do Estado na oferta de serviços. Flávio pretende aumentar a participação privada em diferentes áreas, inclusive nos investimentos em infraestrutura e na prestação de serviços.
SEGURANÇA PÚBLICA E JUDICIÁRIO
Lula propõe integrar as ações de segurança da União, dos Estados e dos municípios, com investimentos em inteligência, câmeras corporais e policiamento de proximidade. O programa também defende a aprovação da PEC da Segurança Pública e a criação de um ministério específico para a área.
Flávio propõe endurecer a política criminal e penitenciária, dobrar os investimentos federais em segurança pública e construir 5 presídios federais de segurança máxima. O programa propõe abrir 500 mil vagas no sistema prisional em 4 anos, reduzir a maioridade penal e ampliar o reconhecimento facial. Também defende classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital), o CV (Comando Vermelho) e milícias como organizações narcoterroristas.
No Judiciário, Lula defende a autonomia entre os Poderes e não propõe alterações nas competências do STF (Supremo Tribunal Federal) . Flávio pretende limitar decisões monocráticas dos ministros, retirar do STF competências criminais originárias e estabelecer quarentena de 1 ano para ministros de Estado indicados à Corte.
POLÍTICAS SOCIAIS E MULHERES
Lula defende ampliar o Bolsa Família e outras políticas de combate à pobreza, fortalecer a assistência social e expandir a Política Nacional de Cuidados. O programa também propõe manter e aperfeiçoar iniciativas de proteção social, habitação e transferência de renda.
Flávio propõe manter programas sociais, mas associa parte das políticas à qualificação profissional e à entrada dos beneficiários no mercado de trabalho. Em entrevista à rádio CBN Bahia em 19 de outubro, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, anunciou uma regra de transição de até 2 anos para quem conseguir emprego com carteira assinada ou abrir um negócio próprio. Nesse período, o beneficiário continuaria recebendo o Bolsa Família e teria retorno automático ao programa caso a tentativa de obter renda própria não desse certo.
“As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada, e todo mundo merece sonhar com mais oportunidade, mais dignidade” , afirmou Marques.
Para as mulheres, Lula prioriza o combate ao feminicídio, a expansão das Casas da Mulher Brasileira e medidas de autonomia econômica e cuidado. Flávio propõe criar a Central da Mulher, com serviços de proteção, saúde e emprego, além da ClarIA, ferramenta digital voltada a denúncias e pedidos de medidas protetivas.
INDÚSTRIA, AGRO E MEIO AMBIENTE
Lula pretende aprofundar a política Nova Indústria Brasil, com financiamento público, compras governamentais e incentivos a setores como inteligência artificial, minerais críticos e descarbonização. Flávio prioriza investimentos privados, redução de custos e segurança jurídica. O senador também defende ampliar o processamento de minerais críticos no país e atrair centros de processamento de dados, conhecidos como data centers.
No agronegócio, Lula propõe ampliar o crédito rural, o Plano Safra e o seguro rural. Flávio também defende expandir o seguro, mas destaca investimentos em irrigação, armazenamento e infraestrutura logística, além de medidas para reduzir a dependência de fertilizantes importados.
Na política ambiental, Lula propõe manter o combate ao desmatamento e ampliar a restauração florestal e a transição energética. Flávio estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e propõe fiscalização com satélites e inteligência artificial, além de mercado de carbono e pagamento por serviços ambientais.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Lula defende uma política externa baseada na autonomia brasileira e na diversificação de parceiros e mercados. O programa busca ampliar a inserção internacional do país e reduzir a dependência de grandes potências, além de responder a medidas protecionistas no comércio exterior.
Flávio propõe reaproximar diplomaticamente e comercialmente o Brasil dos Estados Unidos, com ampliação do comércio e dos investimentos e negociação de barreiras comerciais. Em relação à China, o plano prevê manter os laços comerciais, buscar investimentos e ampliar o acesso a mercados, sem propor o afastamento do principal parceiro comercial brasileiro.

