"Tendência de aumentar indecisos na reta final da eleição é anormal", diz cientista político

Crédito: Eldorado

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O especialista tributário Douglas Tajiri, de 30 anos, não via motivos para se mobilizar pela campanha de Lula ( PT ) no primeiro turno. Convicto de que o presidente seria reeleito, ele conversou pouco sobre política com os amigos e não compartilhou conteúdos sobre a disputa nas redes sociais. O resultado das urnas no último dia 4, com Flávio Bolsonaro (PL) em vantagem sobre Lula , contrariou suas expectativas e o levou a rever a própria postura diante da eleição.

“Diante de um cenário que considerei desfavorável ao presidente Lula no segundo turno e das votações expressivas de deputados e senadores de direita, passei a refletir sobre onde nós, eleitores de esquerda, havíamos errado. Percebi que também deveríamos estar mais presentes nas redes sociais, criticando o que considerássemos errado, divulgando informações positivas, participando de grupos e conversando com amigos e familiares. Foi então que decidi me engajar mais”, conta Tajiri.

A história de Tajiri é um exemplo de como o primeiro e o segundo turnos parecem contar histórias diferentes sobre a mesma eleição presidencial. Às vésperas da votação de 4 de outubro, especialistas apontavam o desengajamento como uma das marcas da disputa. No segundo turno, porém, o cenário mudou: manifestações reuniram multidões, enquanto as redes sociais se tornaram palco de embates mais intensos entre apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro.

“Houve uma mudança expressiva entre o primeiro e o segundo turno, principalmente na campanha de Lula. A mobilização não partiu de dentro do PT, mas de estudantes, jovens e fandoms, que foram às ruas de forma orgânica. A campanha abraçou esse movimento, assim como a mobilização digital do Janones e de artistas, e essas frentes acabaram se somando e gerando um efeito de comunicação”, afirma Cila Schulman, CEO do Ideia.

A especialista em opinião pública e política lembra que mobilizações organizadas por fandoms, como a que ocorreu na Avenida Paulista em 11 de outubro, também marcaram o segundo turno da última eleição presidencial da Colômbia. Lá, a iniciativa ajudou a diminuir a abstenção, mas não foi suficiente para garantir a vitória do candidato governista.

Já a campanha de Flávio, segundo Cila, manteve o ritmo de mobilização nas ruas, com grandes eventos liderados pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado mais votado da história do Brasil e principal expoente da direita no ambiente digital. A diferença no segundo turno foi o maior envolvimento de lideranças locais, sobretudo em São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno, mergulhou de cabeça na campanha de Flávio.

A história narrada por Douglas Tajiri mostra exatamente a combinação entre mobilização nas ruas e articulação digital descrita por Cila. No segundo turno, o especialista tributário participou de dois atos da esquerda e entrou no canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) para engajar a militância petista. Tajiri acompanha diariamente as mensagens do grupo, que se tornou um dos principais ativos de mobilização digital da campanha de Lula e reunia 9,7 milhões de seguidores neste sábado. Sempre que pode, Tajiri também cumpre as tarefas propostas pelo parlamentar, como compartilhar vídeos e ajudar a impulsionar hashtags no X.

“O grupo tem ajudado porque as ações são coordenadas, o que aumenta o impacto. Todo mundo se mobiliza ao mesmo tempo, seja para publicar fotos usando verde e amarelo, participar de panelaços ou pedir que as pessoas pesquisem determinado assunto no Google.”

Os dados da consultoria BITES levantados a pedido do Estadão mostram que a estratégia de mobilização digital encampada por André Janones deu resultado nas redes. No primeiro turno, de 16 de agosto a 4 de outubro, Flávio ganhou mais seguidores que Lula: 2,4 milhões, ante 1,4 milhão. O petista, porém, registrou mais interações: 83,8 milhões, contra 73,5 milhões do adversário. Já no segundo turno, Lula ampliou a vantagem nos dois indicadores. Ganhou 5,8 milhões de seguidores nas redes sociais (X, Facebook, Instagram, Youtube e TikTok), ante 3,3 milhões de Flávio, e registrou 201,2 milhões de interações, três vezes mais que o adversário (60,4 milhões).

“Até o primeiro turno, mesmo na frente, o presidente Lula nunca entendeu a real importância das redes sociais na dinâmica da campanha. No segundo, a percepção sofreu uma profunda mudança porque a realidade se impôs diante dele e seus aliados mostraram a força da Internet”, diz Manoel Fernandes, diretor-executivo da BITES. Para ele, embora Janones seja o aliado mais vocal de Lula nas redes, a guinada da campanha petista no digital foi impulsionada principalmente pelo encontro do presidente com deputados influenciadores.

De terceira via a cabo eleitoral de Flávio

Os motivos para o desengajamento no primeiro turno podem mudar de acordo com o campo político. Enquanto Tajiri acreditava que Lula seria reeleito e, por isso, deixou de se mobilizar pelo petista, o estudante de Direito Carlos Eduardo Rollo, de 18 anos, manteve distância por não se sentir representado pelos candidatos da polarização e tampouco acreditar na viabilidade da terceira via.

A postura de Rollo refletia o sentimento de parte importante do eleitorado às vésperas da votação. Pesquisa do Instituto Travessia divulgada pelo Estadão mostrou que quase quatro em cada dez eleitores foram às urnas no início do mês tomados por “descrença”, “revolta” ou “desânimo”.

Rollo votou no ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), mas não se sentiu motivado a fazer campanha por considerar Lula e Flávio os candidatos “inevitáveis” desta disputa. Com o resultado do primeiro turno, o estudante precisou encarar uma escolha que até então não havia feito.

Antes de decidir entre Lula e Flávio Bolsonaro, o estudante conta que fez uma imersão sobre o cenário econômico do País, com olhar especial para o setor de serviços, onde seu pai trabalha. A conclusão a que ele chegou foi de que a fotografia do presente - com inflação controlada e desemprego baixo - era positiva, mas o filme, nem tanto.

“A dívida pública passou de 82%, nossa carga tributária atingiu recorde, assim como o número de empresas em recuperação judicial. Depois de estudar e refletir, cheguei à conclusão de que votei no Caiado porque não queria manter quem está lá. Queria mudança. Depois de entender tudo isso, não consegui ficar só no voto.”

Foi assim que Rollo passou de espectador no primeiro turno a cabo eleitoral de Flávio no segundo. Nas últimas semanas, ele participou de três atos em favor do senador e ajudou a convocar colegas para dois deles. Até então, sua única experiência em uma manifestação política havia sido aos 7 anos, quando acompanhou o pai em um ato pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Além da mobilização nas ruas, Rollo passou a atuar ativamente em seis grupos de WhatsApp com estudantes do Mackenzie e de outras universidades. Neles, compartilha notícias sobre política e economia, numa tentativa de ajudar outros jovens a se informar.

“Eu vi que, apesar de ter muita gente que concorda com valores e princípios e abomina tudo o que a esquerda tem a oferecer, essas pessoas não estavam preparadas, não sabiam responder a perguntas óbvias sobre o governo. Então, passei a enviar notícias de veículos de imprensa conhecidos, para as pessoas desenvolverem as próprias opiniões - lógico, com influência do meu lado”, afirma.

Para Sérgio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados, o placar apertado do primeiro turno aumentou o temor de cada polo em relação à vitória do adversário. Esse cenário, segundo ele, não só impulsionou a mobilização dos dois lados nas redes e nas ruas, como mudou os temas em debate na eleição.

Dados da consultoria mostram que, no segundo turno, discussões sobre o STF, o governo dos Estados Unidos e o caso Banco Master, que Denicoli classifica como temas da esfera “macro”, perderam espaço nas menções relacionadas aos dois candidatos, enquanto assuntos ligados a costumes, religião, emprego, saúde, educação e economia cresceram.

“No segundo turno, pautas como o STF e o caso Banco Master deram espaço a ideias do que pode ser feito a partir do governo que entra”, diz Denicoli. Para ele, independentemente de quem vencer, a eleição termina com a população mais organizada para ir às ruas e se manifestar. ”O próximo presidente, se for realmente esperto, vai ouvir o que as ruas estão falando e vai ter um governo moderado. Acho que o principal recado que fica é esse.”