A rivalidade entre gremistas e colorados faz parte da identidade de muitas famílias do Rio Grande do Sul. Na casa de Michele e Alexandre, porém, essa disputa ganhou um novo capítulo depois de uma mudança que transformou a vida do casal. Ela, torcedora do Internacional . Ele, gremista. Hoje, os dois vestem preto e branco e dividem com os cinco filhos uma paixão que nasceu longe de Porto Alegre: o amor pelo Atlético.
Nascidos na capital gaúcha e criados em Viamão, Michele e Alexandre chegaram a Betim, na Grande Belo Horizonte, em janeiro de 2025. A mudança representou muito mais do que a busca por uma nova cidade. Depois de anos marcados por dificuldades, dependência química e incertezas, a família encontrou em Minas Gerais a oportunidade de recomeçar. No caminho, descobriu uma torcida que conquistou todos dentro de casa.
Uma história de luta e recomeço
A infância de Alexandre foi marcada por dificuldades. Filho de uma trabalhadora doméstica, ele conviveu com o tráfico de drogas ainda criança e chegou a entregar entorpecentes aos oito anos. Na adolescência, tentou mudar de vida, mas acabou voltando para o mesmo ambiente. Aos 19 anos, começou a consumir drogas e conheceu Michele, com quem está junto há 16 anos.
Michele também conhecia de perto os efeitos da dependência química. Seu pai foi usuário de crack, e ela enfrentou dificuldades desde muito cedo. Aos 14 anos, engravidou do primeiro filho com Alexandre e decidiu permanecer ao lado dele, mesmo diante dos problemas que se acumulavam.
“Eu gostava muito do Alexandre e eu creio que desistir não é a solução. Eu falei: ‘ Vou até o fim ’”, recordou.
Foram anos de luta até que a fé se tornasse parte fundamental da busca por uma mudança. Alexandre reconhece que estava perdendo a própria vida e a convivência com a família.
“Estava desistindo da minha vida. Estava perdendo esposa e filhos. Perdido nas drogas. [...] Deus me resgatou”, afirmou.
A virada começou em meio a uma das maiores tragédias recentes do Rio Grande do Sul. Durante as enchentes de 2024, enquanto buscavam água, Michele e Alexandre conheceram um homem que parou a caminhonete para ajudá-los. O gesto deu início a uma relação de apoio que mudou o rumo da família.
“Ele tinha água na caminhonete e nos deu. Com a água veio a palavra do Senhor. Ele orou conosco, tirou uma foto e perguntou se poderia voltar outro dia”, contou Alexandre.
O homem voltou, levou alimentos e roupas e passou a compartilhar sua fé com o casal. Depois de participarem de uma palestra, Michele e Alexandre decidiram se batizar. Mais tarde, receberam um convite para estudar em Minas Gerais. Após um período de preparação, chegaram a Betim em janeiro de 2025, dispostos a construir uma nova vida com os filhos.
O amigo que apresentou o Atlético
A adaptação a Minas Gerais foi facilitada pelo acolhimento que encontraram. E, entre as novidades da vida no estado, o futebol acabou ocupando um espaço especial. A aproximação com o Atlético começou na igreja, por meio de Bryan, um amigo atleticano que fazia questão de vestir a camisa e falar sobre o clube.
Alexandre, que cresceu torcendo pelo Grêmio, passou a se identificar com o Galo . A lembrança de Ronaldinho Gaúcho, ídolo que vestiu a camisa alvinegra, também ajudou na escolha.
“Eu fiquei pensando, Ronaldinho jogou no Atlético, né? Eu vim para cá para ser cruzeirense? Não, vou ser atleticano. Virei atleticano”, contou.
Mais do que os resultados em campo, Alexandre se encantou com a relação entre o clube e sua torcida, especialmente nos momentos difíceis.
“Quando eles perdem, ao invés de xingar, eles se unem, cantam e pulam”, explicou.
Michele, que deixou para trás a paixão pelo Internacional, também se surpreendeu com a maneira como os atleticanos vivem o futebol. “Até na derrota eles são felizes, eu nunca vi um time assim”, afirmou.
Mas foi em um dos momentos mais delicados da vida da família que o Atlético ganhou um significado ainda mais especial.
As camisetas do Galo que devolveram sorrisos à casa
Quando chegou a Minas Gerais, Michele estava grávida de Isaque, o filho mais novo. Nascido em 23 de março de 2025, o menino precisou ser intubado aos 26 dias de vida, após desenvolver bronquiolite. O quadro era grave, e a família viveu dias de angústia durante a internação.
Enquanto Isaque estava no hospital, Michele conta que já fazia quase um mês que não via os outros filhos sorrirem. Até que, certo dia, as crianças voltaram da escola com mochilas, copos e camisetas do Atlético, entregues pelo Instituto Galo.
“Eu falei: ‘Eles vieram sorrindo, isso é Atlético’”, lembrou.
A cena despertou em Michele a vontade de conhecer melhor as iniciativas do clube voltadas às crianças. Ela descobriu ações com Galo Doido e passou a enxergar o Atlético para além do futebol. O carinho dos filhos acabou conquistando também a mãe.
“Ganhou o coração de um filho, ganhou o coração da mãe”, resumiu.
A partir dali, Michele começou a comprar camisetas e publicar vídeos da família nas redes sociais. Entre críticas e mensagens de apoio, passou a compartilhar uma paixão que se tornou parte da identidade familiar.
De gremista e colorada a uma família atleticana
A antiga rivalidade entre gremistas e colorados perdeu espaço para uma nova paixão. Alexandre mantém carinho pelo clube que acompanhou desde a infância, mas não esconde a identificação com o Atlético. A família também vive essa transformação às vésperas do confronto entre os dois times pela semifinal da Copa do Brasil .
“Estou torcendo para o Atlético. Tenho um carinho grande pelo Grêmio, é o time de onde viemos. Mas o Atlético me ganhou demais. Não tem como chegar aqui e não torcer pelo Atlético”, afirmou Alexandre.
Michele também não deixa dúvidas sobre sua escolha. “Estou torcendo totalmente pelo Atlético. Deixei o Inter de mão, porque o Atlético é um coração gigante. Como dizem, é até morrer, né? Agora vou ser atleticana até morrer”, declarou.
Entre a saudade das origens e o carinho pela nova casa, Alexandre e Michele encontraram no futebol mais uma maneira de criar vínculos. A família que deixou o Rio Grande do Sul em busca de uma oportunidade hoje carrega uma nova camisa e uma nova história para contar.
E, pelo menos dentro de casa, a disputa entre gremistas e colorados ganhou um novo favorito: o Galo.

