São Paulo — No primeiro dia de julgamento do empresário Fernando Sastre , foram ouvidas nove testemunha s, entre as quais Marcus Vinicius Machado Rocha, amigo do réu que estava com ele na Porsche no momento da batida e ficou gravemente ferido, e Lucas Morais da Silva, filho mais velho do motorista de aplicativo morto no acidente. Nesta quinta-feira (29/10), será a vez do réu falar perante o júri popular no Fórum Criminal da Barra Funda , em São Paulo .

Em sua oitiva, Marcus Vinicius, que estava de carona no Porsche 911 de Sastre, afirmou que foi intimidado e abandonado pelos amigos após dizer o que acredita ser a verdade sobre aquela noite. O rapaz fraturou quatro costelas e perdeu o baço após a colisão.

Ele declarou que amigos de Sastre o pediram para mentir ou aliviar para o empresário. No entanto, Marcus Vinicius diz que recusou e foi chamado de traidor. “Lembrar de tudo o que aconteceu dói muito, porque não foi só o ato. Depois de muitas atitudes, perdi todos os amigos em comum, ninguém mais fala comigo”, afirmou.

Marcus foi a primeira pessoa a ser ouvida no plenário. Além dele, também eram esperados os depoimentos de Giovanna Pinheiro Silva e Juliana de Toledo Simões, então namoradas dos rapazes no dia do acidente, em 31 de março de 2024. Apenas Juliana, ex-namorada de Marcus Vinicius, foi ouvida.

Já a namorada de Sastre, Giovanna Pinheiro, estava no rol de testemunhas da defesa do réu. A Justiça de São Paulo chegou a determinar a condução coercitiva da jovem. Os advogados do empresário, entretanto, desistiram do depoimento e ela passou a ouvir o julgamento da plateia, antes de ser retirada do plenário, a pedido do promotor de Justiça Rodolfo Justino Morais.

Os quatro amigos haviam saído naquele dia. Eles se encontraram em um restaurante por volta das 21h, consumiram comidas e bebidas e depois foram para uma casa de pôquer.

Já na madrugada, decidiram ir embora do local, quando, segundo os depoimentos de Marcus Vinicius e Juliana. Sastre e Giovanna teriam iniciado uma discussão porque ela não queria que ele dirigisse embriado.

De acordo com as oitivas, o empresário estaria alterado e os amigos tentaram convencê-lo a não dirigir — o que não foi possível. Giovanna se recusou a entrar na Porsche e Marcus, então, embarcou junto com o amigo.

Filho de motorista morto espera “recado para a sociedade”

Lucas Morais da Silva, o filho mais velho do motorista de aplicativo Ornaldo Silva, que testemunhou no julgamento do caso, afirmou que não consegue mais trabalhar com os aplicativos depois da morte do pai e que a punição de Sastre deve servir como um “recado para a sociedade” .

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Lucas disse também esperar que o julgamento resulte em uma pena que corresponda aos danos provocados pela batida. “Nada mais vai trazer meu pai de volta. Mas uma pessoa fazer o que fez e ir para casa, querer dormir como se nada tivesse acontecido, está muito errado isso”, declarou.

“Depois que teve esse acidente, parece que as pessoas entenderam a proporção do que é beber, dirigir e tirar a vida de outra pessoa. Todo mundo pode sair, pode beber, desde que não vá dirigir. Precisa ficar um recado pra sociedade. Acho que o caso do meu pai vai ser usado como um exemplo de punição. É uma chance de a gente dar um recado”.

Mãe de Fernando Sastre alega falha mecânica em Porsche como causa de batida

Mãe de Fernando Sastre, Daniela Cristina de Medeiros Andrade afirmou durante a sessão do júri que teria havido uma falha mecânica no Porsche 911 que ele dirigia : “Foi uma fatalidade”. Nesta quinta (29/10), um perito deve ser ouvido pelos jurados.

“O que eu posso dizer é que, pelo perito que nós contratamos, pela perícia que foi feita, houve falha mecânica no carro”, declarou Daniela. “O carro não respondeu como deveria responder”.

Defesa e acusação falam

A defesa do réu quer convencer o júri que ele deve responder por homicídio culposo , quando não há intenção de matar. O advogado Jonas Marzagão, que representa Sastre, falou com a imprensa ao chegar ao Fórum Criminal da Barra Funda. Para ele, os depoimentos vão mostrar que o grupo não estava embriagado “do jeito que falam”.

Marzagão defende que o acidente foi provocado por imprudência, o que, segundo ele, permite que o crime seja desclassificado de homicídio doloso para culposo.

O advogado Flávio Torres, que representa a família da vítima, espera condenação por homicídio doloso. “Ficou demonstrado que ele agiu com dolo eventual. Ele assumiu o risco. Tanto é verdade que ele estava a 140 km/h em uma via de 50 [km/h]. Ele bate no carro do seu Arnaldo e finge que nada aconteceu”, declarou.

Nesta quinta-feira (29/10), além do réu, pelo menos outras duas testemunhas devem ser ouvidas no julgamento. Entre elas, a policial militar Dayse Aparecida Cardoso Romão, que liberou Fernando Sastre do local do acidente sem que ele passasse pelo teste do bafômetro.

Acidente com Porsche

• Na madrugada de 31 de março de 2024, Fernando Sastre, então com 24 anos, dirigia um Porsche 911 pela Avenida Salim Farah Maluf, na zona leste de São Paulo.

• Segundo testemunhas, o empresário tentou fazer uma ultrapassagem em alta velocidade e bateu na traseira de um Renault Sandero.

• O Sandero era dirigido por Ornaldo da Silva Viana, de 52 anos, que trabalhava como motorista de aplicativo. Ele ficou gravemente ferido após a batida.

• Ornaldo foi levado ao Hospital Municipal do Tatuapé, onde sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu. A causa da morte foi registrada como traumatismos múltiplos.

• Após a batida, Fernando deixou o local do acidente. O caso foi investigado pela polícia e, posteriormente, o empresário se tornou réu.

• Fernando está preso desde maio de 2024.