As condições meteorológicas adversas e decisões operacionais contribuíram para a queda do helicóptero do Corpo de Bombeiros que matou seis pessoas em Ouro Preto , na Região Central de Minas Gerais, em 11 de outubro de 2024. A conclusão consta no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), datado desta quarta-feira (28).
Segundo a investigação, a aeronave decolou com visibilidade horizontal estimada em 180 metros, abaixo do mínimo de 1 quilômetro previsto para aquele tipo de voo. O documento aponta que a decisão de decolar e a avaliação inadequada dos riscos contribuíram para o acidente.
O Arcanjo 4 havia atendido uma ocorrência de queda de um avião monomotor e se preparava para retornar a Belo Horizonte. Estavam a bordo quatro bombeiros, um médico e um enfermeiro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Não houve sobreviventes.
A investigação do Cenipa tem o objetivo de prevenir novos acidentes e não determina responsabilidades administrativas, civis ou criminais.
Voo durou cerca de 56 segundos
A sequência do acidente foi reconstituída com a ajuda de dois vídeos: um feito por uma pessoa em solo e outro gravado por um dos ocupantes do helicóptero, que registrou todo o voo.
A aeronave decolou de um trevo rodoviário por volta das 17h45. Segundo o relatório, o helicóptero manteve uma trajetória de subida e deslocamento para a frente, mas entrou em uma área com visibilidade cada vez menor.
Cerca de 30 segundos após a decolagem, a tripulação perdeu o contato visual com o solo. Aos 55 segundos, a superfície rochosa apareceu abruptamente nas imagens. Aproximadamente um segundo depois, o helicóptero atingiu a serra.
O Cenipa classificou a ocorrência como voo controlado contra o terreno, situação em que a aeronave colide com o solo ou com um obstáculo sem que os pilotos percebam o perigo a tempo.
Equipe chegou a pedir transporte por terra
Antes da queda, o helicóptero havia pousado no trevo para que o médico e o enfermeiro seguissem de viatura até o local do acidente com o monomotor. A equipe constatou a morte do piloto do avião e retornou à aeronave dos bombeiros.
Com a piora do tempo, os ocupantes permaneceram em solo à espera de condições melhores. O comandante chegou a solicitar uma viatura para levar parte da equipe de volta à base, em Belo Horizonte.
Pela prática adotada pela unidade, alguns integrantes precisariam ficar no local para guardar o helicóptero. Segundo a investigação, o comandante demonstrou desconforto com essa alternativa.
Quando a viatura chegou ao trevo, a aeronave já havia decolado.
O relatório identificou uma melhora na visibilidade pouco antes da partida, mas ainda insuficiente para o voo. Para os investigadores, essa mudança, combinada com a proximidade do pôr do sol, pode ter levado a equipe a interpretar aquele momento como a última oportunidade de retornar pelo ar.
Treinamento e sobrecarga de trabalho
A investigação também identificou problemas na preparação e na organização das operações aéreas.
Os dois pilotos não participaram do último ciclo de treinamento de gerenciamento de recursos da tripulação, realizado em 2023. A capacitação aborda comunicação, coordenação e tomada de decisões em equipe. Segundo o Cenipa, a unidade não tratava essa instrução como obrigatória, apesar da exigência regulamentar.
O documento também registra que os pilotos acumulavam atividades operacionais e administrativas. No caso do comandante, havia relatos de sinais compatíveis com possível estafa nos dias anteriores ao acidente.
A contribuição de fatores como treinamento, fadiga, sobrecarga de tarefas e coordenação entre os ocupantes foi classificada como indeterminada. Isso significa que o relatório os apresenta como possíveis influências, sem confirmar a participação deles no acidente.
Os investigadores também não encontraram evidências de que o gerenciamento de riscos exigido para a unidade estivesse efetivamente implementado à época.
Recomendações e mudanças após o acidente
O Cenipa recomendou à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que compartilhe os aprendizados da investigação com outras unidades aéreas públicas, com atenção ao cumprimento dos treinamentos e ao gerenciamento de riscos.
Também recomendou que a agência avalie a possibilidade de realizar auditorias nos sistemas de gestão da segurança dessas unidades.
Segundo o relatório, o Corpo de Bombeiros suspendeu temporariamente as operações aéreas após o acidente e adotou medidas como reorganização das escalas, incorporação de uma psicóloga à equipe e revisão dos procedimentos e treinamentos.
Quem eram as vítimas
Os seis ocupantes do Arcanjo 4 morreram:
Wilker Tadeu Alves da Silva, capitão e piloto; Victor Stehling Schirmer, tenente; Welerson Gonçalves Filgueiros, sargento; Gabriel Ferreira Lima e Silva, sargento; Marcos Rodrigo Trindade, médico; Bruno Sudário França, enfermeiro.

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