Pesquisa da Universidade Duke analisou 15 anos de programação e identificou críticas à imprensa a cada 14,5 minutos na “Fox News”, contra 140 minutos na “CNN”
Por Philip M. Napoli , Adam Meskouri , Anjini Mani , Grant Socol e Harrison Walley
Em 2025, a confiança no jornalismo atingiu o menor nível já registrado . Segundo o Gallup , apenas 8% dos republicanos declararam confiar na imprensa, em comparação com 51% dos democratas. Dados mais recentes mostram uma leve recuperação entre os republicanos, mas a confiança geral permanece próxima desse mínimo histórico, e a diferença entre republicanos e democratas continua expressiva.
Um dos principais fatores por trás dessa queda desigual na confiança no jornalismo pode ser o tempo que os veículos de comunicação dedicam a atacar outros veículos ou a imprensa de maneira geral — fenômeno que chamamos de desqualificação entre veículos jornalísticos .
Nossa equipe de pesquisa, do DeWitt Wallace Center for Media & Democracy , da Universidade Duke, concluiu recentemente um estudo sobre a presença desse fenômeno em cada uma das 3 principais redes de notícias da TV a cabo dos Estados Unidos ( CNN , Fox News e MSNBC/MS NOW ), se ele aumentou ou diminuiu ao longo do tempo e se existem diferenças significativas na frequência dessas críticas entre as emissoras.
Os resultados foram contundentes. A Fox News supera amplamente as outras redes, com episódios de desqualificação entre veículos jornalísticos a cada 14,5 minutos. Em comparação, a CNN apresenta esse tipo de crítica aproximadamente a cada 140 minutos, e a MSNBC , a cada 61 minutos.
Para realizar a análise, reunimos 15 anos de transcrições de programas de notícias da TV a cabo (2011 a 2025) de cada emissora. Selecionamos uma amostra aleatória equivalente a uma semana de programação para cada ano. ¹ Com essa abordagem, chegamos a 3.543 transcrições e quase 19 milhões de palavras nas 3 redes, o equivalente a aproximadamente 62.000 páginas de texto.
Diante do volume de material a ser analisado, treinamos o GPT-5.5, da OpenAI , para identificar ataques contra a imprensa. Desenvolvemos um documento de instruções de 20 páginas para ajudar o modelo a classificar os episódios de desqualificação. O GPT-5.5 alcançou consistentemente 99,5% de precisão na identificação desses episódios e 100% de precisão ao evitar falsos negativos, em comparação com amostras classificadas por seres humanos. Mais detalhes sobre todo o processo de treinamento e análise estão disponíveis neste documento .
Definimos a desqualificação entre veículos jornalísticos como declarações negativas sobre a conduta ou o conteúdo de um alvo jornalístico explicitamente identificado, como uma organização de notícias específica ou a imprensa em geral. Nossa definição, descrita em mais detalhes no estudo completo , precisou ser bastante detalhada para que o ChatGPT produzisse resultados precisos.
Exemplos de desqualificação entre veículos jornalísticos incluem:
• Dan Pfeiffer, da CNN , descrevendo o “jornalismo político em sentido amplo” como “ruim” , “problemático” e que “fracassa enormemente” ;
• Rachel Maddow, da MSNBC , descrevendo a página de editoriais do The Washington Post como “raivosa” , “espumando pela boca” e “superdireitista” , e afirmando: “Não consigo acreditar que isso esteja neste jornal de verdade” ;
• Mark Levin, da Fox News , dizendo aos telespectadores que “a MSNBC e a CNN […] mentem, mentem e mentem para vocês há anos” .
O que encontramos ao comparar as 3 redes revela muito sobre a dinâmica atual das notícias na TV a cabo e do jornalismo partidário.
Primeiro, o gráfico 1 mostra a frequência da desqualificação do jornalismo em cada uma das 3 principais emissoras. Como o volume de texto analisado varia entre as redes, nossa principal métrica foi a quantidade de episódios de desqualificação por 1.000 palavras transcritas. Nesse gráfico, apresentamos não apenas a taxa por 1.000 palavras, mas também sua conversão em frequência temporal, usando o padrão do setor segundo o qual 1.000 palavras equivalem a aproximadamente 6 minutos de transmissão.
No gráfico 2, apresentamos a frequência da desqualificação entre veículos jornalísticos ao longo do tempo. Observamos que a enorme diferença entre a Fox News e a CNN/MSNBC persiste durante o período de 15 anos. Ainda assim, há algumas quedas no volume de críticas da Fox News nos períodos de 2 anos anteriores às eleições de 2016 e 2024, com os níveis de desqualificação do jornalismo na emissora voltando a patamares próximos dos máximos em 2025. Ainda não conseguimos determinar o significado desse padrão.
CNN e MSNBC parecem convergir em suas atividades de desqualificação a partir de aproximadamente 2017, com uma pequena redução na taxa da MSNBC e um pequeno aumento na da CNN . Esse padrão está alinhado a pesquisas recentes que demonstraram, em outros contextos, que a programação da CNN e da MSNBC está convergindo de maneiras que sugerem uma diminuição das diferenças entre a CNN , mais “centrista” , e a MSNBC , mais inclinada à esquerda.
Uma conclusão importante é que não devemos pensar na Fox News e na MSNBC como lados opostos de uma mesma moeda do jornalismo partidário. Pelo menos no que diz respeito à desqualificação entre veículos jornalísticos, essas redes de TV a cabo, alinhadas à esquerda e à direita, comportam-se de maneiras muito diferentes. Desqualificar o jornalismo é uma parte muito mais central da programação da Fox News do que da MSNBC ou da CNN .
Para compreender melhor essas diferenças, também identificamos os alvos das críticas. Os resultados são apresentados nos gráficos 3 a 5.
O gráfico 3 apresenta uma divisão dos alvos mais comuns de desqualificação na Fox News . De longe, o alvo mais frequente é “a imprensa”. Em um distante 2º lugar aparece a CNN , seguida pela “grande imprensa” , completando os 3 principais alvos. Outros alvos relativamente frequentes incluem The New York Times , MSNBC e The Washington Post .
Como deve estar claro, a Fox News dedica muito mais atenção a desqualificar o jornalismo como instituição do que a atacar veículos específicos. Isso contrasta fortemente com o que observamos nos resultados da CNN e da MSNBC . Analisando primeiro a CNN , o gráfico 4 mostra que seu alvo mais frequente é a Fox News , embora com uma frequência que não seria suficiente para figurar entre os 3 principais alvos da lista da Fox News .
Da mesma forma, como mostra o gráfico 5, a Fox News também é o principal alvo da MSNBC . CNN e MSNBC têm os mesmos 3 principais alvos: Fox News , seguida por “a imprensa” e “a mídia de direita” . Esses episódios de desqualificação institucional ocorrem com frequência muito menor na CNN ou na MSNBC do que na Fox News .
Por fim, também conseguimos identificar quais apresentadores e âncoras mais frequentemente desqualificavam seus colegas jornalistas. Esses resultados podem ser vistos no gráfico 6. Dada a quantidade desproporcional de desqualificação entre veículos jornalísticos na Fox News , não surpreende que o gráfico seja dominado por personalidades da emissora, com Sean Hannity em 1º lugar, seguido por Greg Gutfeld e Tucker Carlson. Vale observar que o gráfico referente a Howard Kurtz reflete sua transferência da CNN para a Fox News em 2013.
Este estudo não fez distinções adicionais quanto à natureza das críticas entre as 3 redes, por exemplo, em termos de gravidade ou legitimidade. Isso é algo que estamos explorando na próxima etapa do trabalho. Também não examinamos se a exposição dos telespectadores à desqualificação entre veículos jornalísticos reduz a confiança em emissoras específicas ou na instituição do jornalismo.
Essa certamente parece uma hipótese razoável, considerando os níveis drasticamente mais baixos de confiança no jornalismo entre os republicanos, mencionados no início. Pretendemos investigar diretamente essa relação em pesquisas futuras.
Mas o que observamos nesta pesquisa é que a desqualificação da instituição do jornalismo e de veículos específicos constitui um componente muito mais proeminente da programação da Fox News do que da CNN ou da MSNBC .
Alguns pesquisadores propuseram que esse tipo de desqualificação em grande volume de fontes de notícias que não seguem a mesma linha partidária nos leva além das noções tradicionais de jornalismo partidário e ao campo da chamada “mídia antimídia”.
O objetivo da mídia antimídia é “transformar a fachada do jornalismo em uma arma contra os papéis atribuídos ao jornalismo ” em uma democracia.
Com base em nossas conclusões, a Fox News se enquadra nessa caracterização.
Philip M. Napoli é professor James R. Shepley de Políticas Públicas, diretor do DeWitt Wallace Center for Media & Democracy e diretor dos estudos de graduação da área complementar de jornalismo e mídia da Sanford School of Public Policy, da Universidade Duke.
Adam Meskouri é pesquisador de política nas universidades Harvard e Duke.
Anjini Mani é estudante de graduação da Universidade Duke.
Grant Socol é assistente de pesquisa de pós-graduação da Universidade Duke.
Harrison Walley é estudante de graduação da Universidade Duke.
Texto traduzido por Sabrina Freire. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui .

