A inteligência artificial tem ampliado as possibilidades de autonomia para pessoas com deficiência visual em Araxá. Por meio do projeto Acessibilidade Inteligente, moradores com perda total ou parcial da visão estão recebendo óculos Ray-Ban Meta, equipados com câmeras e recursos de inteligência artificial que permitem descrever ambientes, ler textos e identificar objetos.

A iniciativa é desenvolvida pelo Instituto Inteligente de Aceleração Social, com participação da BIT Educação e Negócios e apoio de parceiros. A proposta é utilizar a tecnologia para reduzir barreiras no acesso à informação, à educação e às atividades do dia a dia.

Tecnologia que transforma a rotina

Entre os beneficiários está Luiz Eduardo, estudante de contabilidade, que utiliza os óculos para fazer ligações, enviar mensagens e obter informações sobre o ambiente ao seu redor.

“Essa experiência de ter sido contemplado com o Ray-Ban Meta é muito boa, porque o Ray-Ban Meta te ajuda no seu dia a dia. É um óculos com inteligência artificial, que é uma assistente de IA que te ajuda. Ela te ajuda a ler, por exemplo, livros, faz a descrição do que está na sua frente, faz notificações e manda mensagens”, explica.

A audiodescrição também ajuda em tarefas domésticas e na identificação de informações em telas, contribuindo para que Luiz realize atividades com menos dependência de terceiros.

Luiz Eduardo utiliza óculos inteligentes Ray-Ban Meta, que auxiliam pessoas com deficiência visual na leitura e nas atividades do dia a dia. Foto: Alex Xexéu

Experiência pessoal motivou a iniciativa

O projeto tem ligação com a trajetória de Wellington Martins, proprietário da BIT Educação e Negócios e presidente do Instituto Inteligente de Aceleração Social. Segundo ele, o interesse pela acessibilidade surgiu ainda na infância, quando ajudava o tio, que tinha deficiência visual e vendia bilhetes de loteria nas ruas de Araxá.

“Eu percebi, ainda criança, que as pessoas com deficiência visual, as pessoas com deficiência de um modo geral, são produtivas, são empreendedoras. Elas precisam de um apoio, de um acesso maior, usando ou não tecnologia”, afirma Wellington.

O Instituto Inteligente de Aceleração Social foi criado em agosto de 2026. Inicialmente, o trabalho envolveu orientações sobre o uso da inteligência artificial em celulares para pessoas atendidas pelo Projeto Braile, da Biblioteca Pública Municipal. A experiência levou à ampliação da proposta com os óculos inteligentes.

Wellington Martins, idealizador do projeto Acessibilidade Inteligente e presidente do Instituto Inteligente de Aceleração Social, destaca o papel da inteligência artificial na inclusão e na autonomia de pessoas com deficiência visual em Araxá. Foto: Alex Xexéu

Parcerias ajudam a financiar os óculos

O custo dos equipamentos é um dos principais desafios. De acordo com Wellington, a iniciativa depende de doações e parcerias para viabilizar as aquisições.

“Nós estamos buscando, primeiramente, as pessoas que querem ajudar. Eu, por experiência na área social, no terceiro setor, sei que todo mundo quer ajudar. Tem gente que não sabe como, e nós estamos dando como para eles: ajudar a fazer uma vaquinha para comprar um óculos de inteligência artificial para uma pessoa com deficiência visual”, explica.

Segundo ele, o projeto recebeu contribuições de integrantes da maçonaria e da cooperativa Sicredi, que destinou R$ 5 mil para a compra de dois equipamentos. A BIT também contribui com R$ 300 a cada nova turma aberta. A Ótica Carol, na Avenida Getúlio Vargas, oferece os óculos por R$ 3 mil para a iniciativa, conforme informado pelo idealizador.

Com a mobilização dos parceiros, o projeto se aproxima da marca de 22 equipamentos entregues.

Olavo Martins, professor da BIT Educação e Negócios, explica como o uso da tecnologia e de aplicativos de assistência visual contribui para a autonomia e a inclusão de pessoas com deficiência visual em Araxá. Foto: Alex Xexéu

Aplicativo complementa a assistência

Além dos óculos, os beneficiários podem contar com o Be My Eyes, aplicativo que conecta pessoas cegas ou com baixa visão a voluntários por chamadas de vídeo. O recurso permite obter ajuda para identificar produtos, ler etiquetas e interpretar informações visuais.

“O aplicativo consiste em pessoas voluntárias ajudarem as pessoas que não enxergam a descrever aquilo que está na frente delas. Uma pessoa cega liga pelo aplicativo e, do outro lado, um voluntário atende para descrever o que aparece no celular ou o que o óculos está enxergando”, explica Olavo Martins, professor da BIT e participante do projeto.

A motivação de Olavo também é pessoal. Uma tia dele recebeu um dos equipamentos, permitindo que acompanhasse os benefícios na rotina familiar.

“Isso me faz bem. Eu vejo o bem que faz às pessoas. Nós conseguimos um óculos desse para minha tia. Isso já deixou ela mais independente. Muitos casos em que ela precisava de uma terceira pessoa ao lado, hoje ela não precisa mais”, relata.

As irmãs Ana Paula Oliveira e Ana Flávia Oliveira, moradoras do bairro Fertiza, em Araxá, contam como os óculos inteligentes Ray-Ban Meta têm facilitado a leitura e as atividades do dia a dia, proporcionando mais autonomia e independência. Foto: Alex Xexéu

Irmãs destacam mudanças no cotidiano

Ana Paula Oliveira e Ana Flávia Oliveira, moradoras do bairro Fertiza, também foram contempladas com os óculos. Para Ana Paula, uma das principais mudanças está na leitura de medicamentos e livros.

“Antigamente eu não conseguia ler as caixinhas dos meus remédios. Tinha que estar perguntando para a minha mãe o que estava escrito. Hoje em dia eu mostro para o óculos, ele fala. Aí eu sei se é o que eu vou tomar ou não. E eu leio livro, já li livro com ele, que é coisa que eu gosto muito: pegar o livro fisicamente, não escutar o áudio”, conta.

Ela pretende utilizar a tecnologia nos estudos e destaca a possibilidade de ler materiais impressos com mais independência.

Ana Flávia também utiliza o equipamento para consultar receitas médicas, identificar cores e obter descrições do ambiente.

“Eu peguei uma receita médica, pedi para ela ler, aí ela leu o nome do remédio que o médico me passou. Também faço descrição de alguma coisa, cores, e peço para ler alguma coisa que está escrita, um livro. E eu estou muito feliz”, relata.

Tecnologia não devolve a visão

Apesar dos benefícios, Ana Paula ressalta que os óculos não são um equipamento de correção visual e não fazem a pessoa voltar a enxergar. A tecnologia utiliza câmeras e inteligência artificial para interpretar informações e transmiti-las em áudio.

“O óculos vê o que está na minha frente, mas não me faz enxergar. Ele vai falar o que está vendo, não são meus olhos. Não vou voltar a enxergar. Ele não é um óculos de grau. É uma tecnologia, uma assessora que vai ajudar”, esclarece.

O equipamento pode facilitar tarefas como leitura, identificação de objetos e compreensão do ambiente, mas não elimina todas as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência visual. Os resultados dependem das condições de uso e da capacidade do sistema de interpretar cada situação.

O projeto Acessibilidade Inteligente está próximo de entregar o 22º óculos Ray-Ban Meta em Araxá. Com custo de R$ 3.900, o equipamento é oferecido por R$ 3 mil por meio de uma parceria com a Ótica Carol, e as aquisições são viabilizadas por doações e apoiadores. Foto: META

Inclusão por meio da inovação

Para Wellington Martins, a tecnologia deve ser utilizada para melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades de participação social.

“Hoje, você conversa com a inteligência artificial, assim como o óculos conversa, e dá retorno, dá resultado. E esse resultado nós o transformamos em acessibilidade”, afirma.

Em Araxá, o projeto Acessibilidade Inteligente mostra como a união entre inovação e mobilização social pode contribuir para a inclusão. Ao facilitar o acesso à informação e a realização de tarefas cotidianas, os óculos representam uma ferramenta para ampliar a independência de pessoas com deficiência visual e criar novas possibilidades nos estudos, no trabalho e na vida pessoal.