Decisivo na virada do 2º turno, Minas Gerais, estado tido como o "espelho do Brasil", ajudou a garantir a vitória do presidente Lula (PT) sob a promessa de atenção especial da União.

A campanha de Lula em Minas teve seis visitas entre 21 de agosto e 21 de outubro, com atos em Governador Valadares, Belo Horizonte, Montes Claros, Juiz de Fora e Ipatinga.

No 1º turno das eleições de 2026, o presidente perdeu para Flávio Bolsonaro (PL) no estado, com uma diferença de 588 mil votos.

No 2º, o petista conseguiu virar e garantiu uma vantagem de quase 110 mil votos.

Entre os turnos, Lula ganhou mais de 1 milhão de votos no estado, enquanto Flávio, cerca de 465 mil.

O presidente foi o mais votado em 528 municípios mineiros no 2º turno, 76 a mais que no 1º.

Minas foi o único estado em que ele virou o resultado.

Com a contribuição de Minas na virada histórica, entra na conta do presidente Lula os principais compromissos que ele assumiu com o estado ao longo do período de campanha: finalizar a duplicação da BR-381, solucionar de vez a dívida de Minas, construir um novo hospital universitário em Montes Claros e dar mais recursos para Juiz de Fora por conta das tragédias das chuvas em fevereiro deste ano.

Demandas históricas

Os mais emblemáticos dizem respeito à duplicação da BR-381, conhecida como “Rodovia da Morte”, e à dívida de Minas com a União, demandas históricas do estado com o governo federal.

O trecho da rodovia entre Belo Horizonte e o município de Governador Valadares, na região do Rio Doce, ganhou esse apelido por conta do alto índice de acidentes com mortes em suas pistas, com maior destaque negativo entre a capital mineira e a cidade de Caeté, ainda na Região Metropolitana, devido ao traçado sinuoso, às curvas fechadas e ao intenso fluxo de veículos de carga em uma pista que é simples.

Considerando toda a extensão da BR-381 em Minas, que inclui também a Fernão Dias, entre BH e São Paulo, a rodovia somou 87 mortes no primeiro semestre de 2026, ante 74 no mesmo período de 2025, alta de 17,6%, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Já a dívida de Minas se acumula desde a década de 1990, quando começou como uma forma de aliviar os cofres públicos de Minas Gerais.

De lá pra cá, esse débito passou por várias tentativas de renegociação e prorrogação do pagamento.

Atualmente, o saldo da dívida com a União está em mais de R$ 180 bilhões.

No final do ano passado, Minas aderiu ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), aposta do governo federal para solucionar o problema.

Entretanto, mesmo com a iniciativa, a dívida do estado entrou no radar dos candidatos nas eleições de 2026, que prometeram tentar dialogar com o presidente em busca de novas maneiras para reverter o débito.

BR-381: de ‘Rodovia da Morte’ a ‘Rodovia da Vida’

Em Ipatinga, no dia 16 de outubro, durante a campanha para o 2º turno, o presidente Lula chamou a atenção para as obras de duplicação da BR-381.

“Se não tomarmos cuidado, vai voltar a ser chamada de estrada da morte.

Mas nós vamos transformá-la em estrada da vida”, garantiu.

A promessa não é nova: em 2022, na mesma cidade, o petista já havia se comprometido a duplicar a rodovia até Governador Valadares.

O desafio para retirar o estigma de “Rodovia da Morte” passa, em especial, pelas obras de duplicação entre Belo Horizonte e Caeté.

As intervenções começaram neste ano pelo Lote 8A, com previsão de entrega para o primeiro semestre de 2028.

São 18 km entre o trevo de Caeté e o distrito de Ravena, em Sabará.

As obras no Lote 8B, que inclui a saída de BH e totaliza 13,4 km, ainda dependem do reassentamento de 800 famílias residentes.

Para o engenheiro civil Silvestre Severiano, mestre em transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o trecho entre BH e Caeté é complexo, justamente, por conta das residências às margens da rodovia.

"Esse é o caminho crítico de todo o processo, porque não depende da concessionária, depende do governo.

E, se o governo prometeu, é a hora de cobrar o cumprimento.

Ele assumiu o ônus dessas obras iniciais, mas assumir no papel não adianta nada.

Ele tem que fazer."

Dos cerca de 300 km entre Belo Horizonte e Valadares, a maior parte está concedida desde fevereiro de 2025 à Nova 381, que prevê duplicar 106 km entre Caeté e Belo Oriente até 2033 e já entregou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) o estudo de viabilidade para duplicar outros 74 km até Valadares.

"Só por existir a concessionária, já há uma melhoria da segurança.

Quando um veículo quebra, falta combustível, estoura um pneu, tem alguém rapidamente para ajudar, e ele não fica ali parado muito tempo", diz Severiano.

Para o trecho até Valadares, ele defende uma ordem de prioridades: "A prioridade primeiro é até o Vale do Aço, e a segunda é chegar em Valadares.

Se você colocar terceiras faixas nas rampas, arrumar interseções, você dá uma sobrevida a ele, mesmo em pista simples".

Dívida de Minas depende de avaliação de ativos

Quando visitou Governador Valadares, em agosto deste ano, Lula falou sobre a dívida de Minas com a União, criticando diretamente o ex-governador Romeu Zema (Novo) e saindo em defesa de Fernando Pimentel (PT).

No último ano do mandato de Pimentel como chefe do Executivo de Minas, o petista conseguiu uma decisão no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender o pagamento das obrigações junto à União.

Zema, que assumiu no ano seguinte, em 2019, só retomou o pagamento da dívida em outubro de 2024.

“Ele não tinha pago nada entre 2019 e 2026.

E agora Minas terá 30 anos para pagar a dívida com juro real zero.

E poderá dar ativos de MG como parte do pagamento para amortizar parte da dívida”, disse Lula em Valadares.

A medida citada pelo presidente já está prevista no Propag.

Pelo programa, Minas não paga mais juros da dívida, mas o que pode fazer diferença no saldo é a negociação dos ativos oferecidos ao governo federal para abatimento no débito.

A expectativa é a de que os ativos possam amortizar até 20% do valor total da dívida, mas ainda estão em negociação.

Na avaliação do auditor fiscal da Receita Estadual de Minas e vice-presidente do Sindicato dos Servidores da Tributação, Fiscalização e Arrecadação de Minas Gerais (Sinfazfisco-MG), João Batista Soares, o governo federal poderia buscar agilizar a avaliação do que está sendo oferecido para dar uma “folga financeira” ao estado.

Isso pode passar também pelo diálogo com o futuro governador de Minas, Cleitinho Azevedo (Republicanos), de acordo com Soares.

“A única forma do governo federal intervir nessa questão é justamente liberar esses ativos que foram entregues o mais rápido possível para reduzir o estoque, e, com isso, diminuir também a parcela da dívida.”

Conforme o Ministério da Fazenda, a lei do Propag não estabelece um prazo específico para que os governos cheguem a um consenso, considerando que trata-se de um processo “complexo” e que necessita de “avaliação técnica individualizada”.

“A Secretaria do Tesouro Nacional tem envidado esforços para assegurar a análise tempestiva das propostas, promovendo a identificação de eventuais necessidades de complementação documental junto a outros órgãos competentes, bem como a realização de reuniões técnicas com os representantes do ente federativo”, diz o governo federal.