Alexandre Magno diz ter descoberto que esquema envolvia vários profissionais da saúde pública e gerava mais de R$ 600 mil por mês
Minas Gerais | Arnon Gonçalves, do R7 e Luiz Casoni e Rosildo Mendes, da RECORD Minas
31/10/2026 - 02h00 (Atualizado em 31/10/2026 - 02h00 )
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O médico Alexandre Magno Machado denuncia ter sido demitido após descobrir um suposto esquema de plantões fantasmas na rede pública de saúde em Santa Luzia, na Grande BH. Segundo o profissional, médicos de duas unidades eram escalados para plantões que não existiam e recebiam valores altos por eles sem precisar sair de casa. “Muitas pessoas comprando casa na praia, casa nova, carro zero, sem um salário proporcional a isso”, afirma.
Os casos estariam ocorrendo no Hospital Municipal Madalena Parrilo Calixto, que fica na região central da cidade, e na UPA São Benedito. Além do médico, uma ex-gerente de uma das unidades acredita que pode ter sido demitida após perceber uma suposta movimentação de valores altos nos documentos e resolver questioná-los. A Polícia Civil instaurou inquérito para investigar o suposto desvio de dinheiro da saúde e os impactos disso nos cofres públicos.
Plantões fantasmas
Alexandre conta que começou a trabalhar no Hospital Municipal Madalena Parrillo Calixto em março e logo no início estranhou a escala de plantões do local. “Nós temos um aplicativo com escala de plantões. Em um belo dia eu olhei e todos os dias eu tinha plantão, até em um outro hospital em que eu nunca fui e nem conheço. Falei pra escalista, mesmo assim ela manteve. Me colocavam 30 plantões de 24h em um mês, o que é humanamente impossível. Como alguém tira 30 plantões?”.
Segundo o médico, apenas 15 dias depois do início do trabalho no local, ele recebeu uma “proposta” do responsável técnico da unidade, que chefiava a equipe médica. “Ele me abordou falando ‘o dinheiro vai cair, é pra você repassar tanto, caso contrário você vai ser demitido, mas não se preoucpe porque não tem risco algum, porque muitas pessoas como o diretor entre outras estão cientes do negócio’. A minha parte era entorno de R$ 25 mil, a dele quase R$ 40 mil e a parte da propina que ele iria me passar seria R$ 4 mil”, conta.
Ele conta que rejeitou a proposta e continou trabalhando. Já no primeiro pagamento, veio o valor a mais que o chefe havia comentado. “Eu continuei agindo como se nada tivesse acontecido, e o pagamento continuou caindo, eu printava o valor, passava para o delegado e entregava minha pequena parte para ser apreendido em juízo e repassava para o judiciário, que eram os R$ 4 mil que me cabiam”, afirma Alexandre.
Ainda segundo o médico, ao final do terceiro período dos pagamentos do suposto esquema, e já com a denúncia em mãos, a Polícia Civil realizou uma operação no local. O chefe apontado por Alexandre como o responsável por abordá-lo para participar foi afastado do cargo. Alexandre conta que ficou sabendo, durante a investigação, que cerca de 10 médicos estavam envolvidos e que as movimentações ultrapassavam R$ 600 mil por mês. Mas a informação ainda não foi confirmada pela PC. “Eu que fui o denunciante virei o algoz, fui perseguido de todas as formas e fui demitido logo sem seguida”, afirma o médico.
Prejuízo para os pacientes
Além do prejuízo nos cofres públicos, Alexandre acredita, também, que o esquema prejudicou os pacientes que buscaram atendimento durante os plantões fantasmas. “Pra suprir a demanda da população é necessário pelo menos quatro médicos de dia e três de madrugada, tem dias que tem apenas dois. Teve plantão de 12 horas que eu atendi 110 pessoas, humamente quase impossível. E se eu não fizesse os pacientes ficariam sem atendimento, então eu tive que me desdobrar. Um desgaste tanto pra mim quanto para os pacientes”.
Ele diz, ainda, que o esquema pode ter contribuído para situações críticas registradas nas unidades por falta de profissionais para o atendimento. “De janeiro a dezembro teve óbito de três bebês e essas mães foram no Ministério Público e denunciaram e a partir daí começou uma investigação, mas eles não tinham muito embasamento. Quando eu entrei na jogada e mostrei as provas que eles puderam fechar o inquérito criminal”.
Gerente demitida
Um admistradora que trabalhou por um tempo na unidade como gerente acredita que foi demitida por questionar demais as contas do local para o seu superior. “Pode ser que seja porque eu liguei para ele algumas vezes, quando eu fiquei no lugar dele e chegavam as notas pra mim eu questionava os valores e ele falava ‘eu já conferi, já está na planilha e é só você assinar’. Ao ponto das notas não ficarem mais nas minhas mãos”.
Ela conta que os gastos irregulares não se limitavam aos plantões, mas também envolviam serviços de alimentação, fornecimento de insumos e rouparia. Segundo a ex-gerente, o chefe ficava incomodado com as perguntas sobre os valores e ela foi sendo exclusíva dos processos, até vir a demissão.
Operação policial
Em setembro a Polícia Civil realizou a Operação Plantão Fake e cumpriu sete mandados de busca e apreesão em Santa Luzia e Belo Horizonte. Entre os alvos estava o ex-secretário municipal de saúde , Rodrigo Gazeto, que deixou o cargo e hoje é vereador na cidade.
Em nota, Rodrigo disse que desconhece qualquer envolvimento dele nos fatos e que o caso está sendo acompanhado pela PC. “Reitero, de forma categórica, que jamais tive qualquer participação em desvios de conduta relacionados a essa situação”, disse o ex-secretário.
No dia da operação policial, a Prefeitura de Santa Luzia informou que instaurou uma apuração interna para verificar possíveis fatos, circunstâncias e responsabilidades. Segundo o município, uma comissão foi criada para examinar questões relacionadas a contratos da área da saúde . A prefeitura esclareceu, porém, que o trabalho não tinha como objeto específico uma eventual rachadinha entre médicos e que as conclusões foram encaminhadas ao Controle Interno, onde o procedimento está em análise.
Investigação em andamento
A Polícia Civil confirmou que o inquérito policial sobre o caso segue em tramitação com diligências e apuração do caso e outros detalhes serão divulgados após a conclusão da investigação para não comprometer os trabalhos.
Nota da prefeitura Santa Luzia, após a denúncia do médico:
“A Prefeitura de Santa Luzia informa que mantém o posicionamento já divulgado sobre as denúncias de possíveis irregularidades em plantões médicos na rede municipal.
Em setembro de 2025, após questionamentos sobre o caso, a Administração Municipal anunciou a criação de uma comissão interna para apurar questões relacionadas à gestão da Saúde.
Em setembro de 2026, a Polícia Civil realizou uma operação para investigar as suspeitas. Na ocasião, a Prefeitura informou que adotaria as providências cabíveis e colaboraria com as autoridades.
Como a investigação tramita sob segredo de Justiça, a Secretaria Municipal de Saúde não dispõe de informações adicionais que permitam esclarecer o número de servidores eventualmente desligados ou estimar possíveis prejuízos aos cofres públicos
A Prefeitura reafirma seu compromisso com a transparência e com a apuração de eventuais irregularidades, respeitando os limites legais e o trabalho das autoridades competentes".
Nota de Rodrigo Gazeto na íntegra:
“Desconheço qualquer envolvimento meu nos fatos mencionados. O caso está sendo acompanhado pela Polícia Civil e, oportunamente, os fatos serão devidamente esclarecidos. Reitero, de forma categórica, que jamais tive qualquer participação em desvios de conduta relacionados a essa situação”.
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