No episódio de hoje do Toca Explica, o professor de música clássica e doutor em Funk, Thiagson, reflete: afinal, o instrumento musical de brinquedo realmente existe?
A separação rígida entre "brinquedo" e "objeto sério" é uma invenção social moderna. No entanto, enquanto um carrinho de brinquedo não transporta ninguém, um instrumento infantil emite som do mesmo jeito que qualquer outro.
Arte e Ruptura: Compositores como John Cage (que escreveu em 1948 uma suíte para piano de brinquedo) e o brasileiro Hermeto Pascoal provaram que instrumentos lúdicos têm espaço absoluto em salas de concerto profissionais.
A Psicanálise do Brincar: Para Freud e Winnicott, tocar música nada mais é do que a maneira adulta e socialmente aceita de continuar brincando. A incapacidade de brincar, por sua vez, é o cerne de muitas questões tratadas em terapia.
Estigma Comercial: Rótulos de "brinquedo" costumam ser ferramentas para desvalorizar objetos. A própria flauta doce — de enorme prestígio no Renascimento e Barroco — e o estilofone (usado por David Bowie em 'Space Oddity') sofreram ou sofrem desse estigma, embora tenham valor artístico incontestável.
O Lado Sombrio: O apelo nostálgico e infantil de caixinhas de música e pianos de brinquedo explica por que eles viraram clichês em filmes de terror, dialogando com o conceito freudiano do "estranho-familiar" (Unheimlich).
No fim das contas, a conclusão do Toca Explica é direta: todo instrumento musical é, em sua essência, um brinquedo. Fazer música é, portanto, a chave para fazer as pazes com a nossa própria infância.

