A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker nesta segunda-feira (26), após o Ibovespa registrar queda de 10% em relação ao fechamento do pregão anterior. Com a medida, as negociações no mercado à vista foram suspensas por 30 minutos. Os negócios foram retomados às 10h38, mas a maioria dos papéis ainda permanecia em leilão, apesar do desempenho positivo das bolsas dos Estados Unidos e da Europa.
Após atingir máxima de 205.088,74 pontos, próxima à abertura, quando marcou 205.070,19 pontos, o Ibovespa aprofundou as perdas e chegou à mínima de 169.516,43 pontos, com queda de 17,34%. A reação ocorreu após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República, no domingo (25) .
Parte dos investidores apostava na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que sinalizava uma política fiscal menos expansionista que a de seu adversário. Com a confirmação da vitória de Lula, a Bolsa passou a refletir uma maior aversão ao risco, segundo analistas do mercado financeiro.
“O segundo turno não foi uma surpresa, e sim o primeiro. A volatilidade grande que o mercado estava imprimindo veio por conta da mudança da não vitória de Flávio. Então, investidores desovam papéis mais relacionados ao governo, como Petrobras, com queda de 12% nas ações preferenciais e de 10% nas ordinárias, e Banco do Brasil, com baixa de 31%”, afirmou Luis Ferreira, diretor de investimentos para as Américas do EFG.
Para Ferreira, a reação desta segunda-feira representa mais um ajuste de posicionamento dos investidores do que uma mudança estrutural no cenário econômico. Segundo ele, o mercado precificava desde meados de agosto uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, movimento que impulsionou ativos brasileiros e contribuiu para a queda do dólar.
Com a reeleição de Lula , parte dessa aposta tende a ser desfeita, pressionando o câmbio e provocando uma alta expressiva dos juros futuros, na avaliação do executivo.
Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, também avaliou que a reação dos ativos era esperada, mas que o resultado eleitoral surpreendeu parte do mercado.
“Era sabido que, se o Lula ganhasse, os mercados iam corrigir. O mercado estava com precificação forte, as chances de ele vencer eram pequenas”, afirmou.
Segundo Magno, uma das principais preocupações dos investidores é a trajetória das contas públicas brasileiras a partir de 2027, diante da perspectiva de novos aumentos de benefícios e despesas do governo. Para ele, esse cenário amplia a incerteza sobre a condução da política fiscal.
Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, afirmou que os agentes financeiros temem a continuidade de gastos elevados, a manutenção do crédito subsidiado e a adoção de políticas que possam ampliar a dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
“Então, a trajetória é de alta para os juros futuros”, disse.
Circuit breaker não era acionado desde 2020
O último acionamento do circuit breaker na B3 havia ocorrido em março de 2020, durante a turbulência provocada pela pandemia de Covid-19. Naquele mês, o mecanismo foi utilizado seis vezes. Desde a adoção do sistema, em 1997, foram 24 acionamentos, incluindo o registrado nesta segunda-feira, segundo os dados fornecidos. Até então, nenhuma eleição presidencial havia provocado a interrupção das negociações na Bolsa brasileira.
Pelas regras da B3, uma queda de 10% do Ibovespa em relação ao fechamento anterior interrompe as negociações por 30 minutos. Após a retomada, se a desvalorização atingir 15%, ocorre uma nova suspensão, de uma hora. Caso o índice chegue a uma queda de 20%, a Bolsa pode interromper os negócios por prazo indeterminado.
Lula venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno de domingo (25), em uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras. O petista recebeu 51,79% dos votos válidos, o equivalente a 64,26 milhões de votos, ante 48,21% do adversário, que somou 59,83 milhões. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos, superior à registrada nas disputas presidenciais de 2014 e 2022.
Ibovespa futuro também registra queda
O Ibovespa futuro abriu em queda de quase 15%, próximo ao limite de oscilação permitido pela B3 antes da abertura do mercado. As negociações foram interrompidas quando o contrato registrava baixa de 14,84%, aos 177.215 pontos.
A Bolsa ampliou duas vezes os limites de oscilação para os ativos. Após a retomada dos negócios, o Ibovespa futuro aprofundou a queda para 19,84%, aos 166.800 pontos.
Às 11h48, o Ibovespa recuava 16,15%, aos 171.931,23 pontos. Segundo Magno, a presença de um grande número de ações em leilão poderia influenciar a variação observada no índice.
Entre as 76 ações consideradas no levantamento, seis registravam alta. A Suzano liderava os ganhos, com valorização de 8,57%. Na ponta negativa, a Vamos apresentava a maior queda, de 56,94%, em meio à disparada dos juros futuros.
No cenário internacional, os investidores acompanham nesta semana a decisão sobre juros do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, além da divulgação de balanços de empresas brasileiras e estrangeiras.

