Gerando resumo

BRASÍLIA — O fim das eleições e a fuga de Flávio Bolsonaro (PL), após a derrota para o presidente Lula (PT), abriu um novo flanco de ataques dentro do bolsonarismo, e lideranças já discutem como reerguer a direita com trabalho de base.

Ao longo da semana, duas alas do bolsonarismo voltaram a se estranhar após a decisão de Flávio viajar escondido para os Estados Unidos e divulgar uma carta golpista, em que se proclamava o “ verdadeiro presidente eleito ” — termo depois corrigido para “líder do Brasil”.

Uma das alas, formada por pessoas do entorno da ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF), do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do pastor Silas Malafaia , não gostou da postura adotada por Flávio.

Aliados de Michelle criticaram, sob reserva ao Estadão , as decisões tomadas por Flávio na esteira da derrota. Avaliam que os votos “não são de Flávio, são do Jair” e que, se o ex-presidenciável quisesse liderar a oposição e se colocar mais uma vez como candidato a presidente, visando 2030, deveria ficar no Brasil.

Eles avaliam que Tarcísio aparece hoje tão pronto quanto Flávio para uma revanche em 2030, e que o governador teria o mesmo potencial de votos do senador, uma vez que “pertencem a Jair, e vão para quem ele indicar candidato”.

Uma pessoa próxima a Michelle qualificou o timing da entrevista de Tarcísio ao Estadão , publicada nesta quinta-feira, como “ruim” para o grupo, mas diz acreditar que ele tem o direito de deixar uma eventual candidatura à Presidência em aberto. O governador afirmou que, “terminando bem o segundo mandato, obviamente abre uma possibilidade (de disputar a Presidência), mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não sozinho”.

O incômodo com Flávio e a troca de fogo foi expresso na tarde desta sexta-feira, 30, pela própria Michelle. Numa rede social, ela chama o marido de “meu galego e nosso líder”, em referência ao termo usado por Flávio para se denominar, e diz que o momento é de união e não de “procurar culpados”.

“Ele se entristece quando vê notícias falsas, atribuindo a ele manifestações mentirosas, que pregam a divisão, apontam injustamente supostos ‘culpados’ e afirmam exatamente o contrário do que ele verdadeiramente sente por pessoas como Damares, Tarcísio, Nikolas, Silas Malafaia e outros que estão sendo atacados: muito respeito, carinho e gratidão”, escreveu Michelle.

A postagem da ex-primeira-dama foi compartilhada pelo governador Tarcísio de Freitas.

A autoproclamação de Flávio em “líder do Brasil” incomodou muitos além de Michelle. A advogada Flávia Ferronato (777 mil seguidores no X) publicou que “o líder da direita é Jair Bolsonaro”. O perfil @VlogdoLisboa (1 milhão de inscritos no YouTube) escreveu que “Jair Bolsonaro surgiu como líder da direita de forma orgânica, e o líder da direita é Jair Bolsonaro”. O apresentador Tiago Pavinatto (2,2 milhões de seguidores no Instagram) disse que “o líder é o Jair Bolsonaro, não é o Flávio”.

“Líder de direita, líder nato, é Jair Messias Bolsonaro. Ele indicou o filho Flávio, concorreu à eleição, vocês acompanharam tudo o que aconteceu. O resto é resto. Líder, com admiração e respeito do povo, é Jair Messias Bolsonaro”, afirmou em vídeo o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo.

O comunicador Allan dos Santos, outro aliado de Eduardo em território americano, afirmou após a divulgação da carta que a direita bolsonarista não tem opção além de seguir Flávio Bolsonaro:

“Deixar bem claro para todos os políticos que estão me ouvindo. Se você não declarar apoio ao Flávio neste momento, e não falar (isso) para o seu público, você é meu inimigo. Inimigo”, disse em vídeo.

Apesar das acusações sem fundamentos feitas por lideranças do bolsonarismo às eleições, a militância e alguns comunicadores jogaram a toalha e passaram a discutir como começar a preparar o terreno desde já para retomar o poder em 2030. O PL Jovem do Distrito Federal, por exemplo, tem reunião marcada para este sábado para debater o que fazer daqui em diante.

O coach Pablo Marçal, que se juntou à campanha de Flávio Bolsonaro na reta final e contribuiu para orientações nos debates eleitorais, disse ser preciso virar a página o quanto antes.

“‘Marçal, mas a gente tem que fazer alguma coisa’. Temos, nós temos que desapegar rápido e construirmos algo forte. Nós precisamos cuidar da nossa vida de um jeito que nunca cuidamos. Porque tem gente doente desde 2022 por causa de eleição”, disse para sua plateia nesta semana.

Alguns querem até mesmo eleições antes do fim do mandato de Lula, o que não é possível de acordo com a Constituição Federal do Brasil. É o caso do comunicador Paulo Figueiredo, braço direito de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e quem divulgou a carta de Flávio à imprensa:

“É bobagem esse negócio de que Flávio Bolsonaro será candidato em 2030. Se Deus quiser, teremos novas eleições muito antes disso! E o povo vai votar BOLSONARO de novo. Só precisamos nos assegurar que sejam eleições limpas”, publicou Figueiredo.